Geral

Published on março 7th, 2018 | by ES1

0

Experiência, condescendência e negligência de um plastimodelista

Era um fim de semana para ser como qualquer outro. Ia levar minha mãe para dar uma volta com as amigas dela no sábado, veria um amigo e, depois, eu iria para a bancada, desembolar o Grumman Tracer que, finalmente, tinha chegado à fase de pintura.

As tintas estavam separadas, aerógrafo limpo, luva na mão (pra não me sujar e nem engordurar a superfície da miniatura), modelo pronto, aerógrafo conectado ao compressor. Hora da festa!

O Grumman Tracer, assim como boa parte da aviação de asas fixas da USN nos anos ’60 e ’70 era pintada no padrão chamado de high-visibility, com grande contraste entre os tons usados em sua pintura. Por definição, as cores são Night Black – FS37038, Light Gull Grey (ANA 620) e o Insignia White (ANA 511). Resolvi começar pelo Insignia White mesmo, já que branco costuma ser a cor mais chata de se aplicar(e eu gosto de passar primeiro pela parte mais chata). Ainda que eu tenha o costume de usar tintas acrílicas, o meu Insignia White é automotivo PU(com aderência e cobertura excelentes, digamos a bem da verdade). 

Fui que fui, com a pintura das partes brancas do avião consumindo um bom tempo, já que se tratam de todas as superfícies inferiores e as de comando. Dei um tempo antes de dar uma demão mais extensa(aproveitei esse kit para testar a técnica do black basing, que meu amigo Mário Serelle já tinha me falado). 

Pela parte da noite, já havia buscado minha mãe da farra das amigas dela, mas comecei a me sentir mal: garganta seca, vias aéreas irritadas, cabeça doendo…Com o calor que tem feito no ES e os constantes choques térmicos entre áreas climatizadas e não-climatizadas, achei que fosse um princípio de gripe. Tomei uma Coristina e pronto.

Uma noite sem dormir.

Domingo, dia comum: fiquei em casa, mas como não tinha dormido nada na noite anterior, o dia não rendeu grandes coisas. Aproveitei para dar uma caminhada no calçadão um pouco. E o sensação de mal-estar no corpo só se reforçando. Fim do dia, hora de arrumar tudo para ir para o serviço na UdK na segunda…

Mais uma noite sem dormir direito.

Com um dos meus sócios em home office, a segunda passou calma até demais no escritório…Vendas, ligações para os correios, blog, mídias sociais… Nada de mais. E o mal-estar não passava ao longo do dia, que se somava à duas noites sem dormir. O calor abafado também não estava ajudando muito.

Um pouco de sono, mas não muito.

Então é terça-feira. A fatídica terça-feira e a chave desse texto(até agora talvez meio carente de sentido). Levantei-me, vesti-me e fui tomar café… Sensação estranha de não conseguir engolir… Extremidades dormentes, suor frio e abundante, raciocínio meio embaralhado… “Mas que p*&%$ é essa, gente?” eu lembro de ter me perguntado. Logo eu liguei os pontos: queda de pressão. Pedi licença da mesa e saí andando para me deitar no sofá da sala com as pernas para cima até me restabelecer.

Repentinamente, tudo se apagou.

A próxima coisa de que me lembro, são meus pais, desesperados ao meu lado, eu no chão, com a cara no piso gelado…A visão voltando aos poucos. “O que aconteceu?”, “Como vim parar aqui?” eram as perguntas que rondavam minha mente. Com alguma dificuldade, pois ainda me sentia enfraquecido e entorpecido, eu me levantei com a ajuda deles e fui até o sofá. Minha cabeça doía horrores, minha bacia também. Meus pais me disseram que eu desmoronei e acertei a mesa de jantar e uma cadeira. O impacto meu foi tão violento, que até tirou a mesa de lugar. E ela é pesada pra caramba!!

Aviso os meus sócios de que não posso ir para a UdK e eles me recomendam ir para um hospital ao lado da empresa(e perto daqui de casa) ao que eu respondo positivamente, esperando apenas o organismo ficar um pouco mais forte. Algumas horas se passaram e era chegada a hora do almoço, mas nem almoçar direito eu conseguia! Será que uma gripe tinha feito todo esse estrago mesmo?

Chegando ao hospital, pouca gente para ser atendida no PA… Sou levado ao consultório em uns 15 minutos. Conto tudo para o médico que aconteceu. Ele fez uma pergunta: “Você se expõe a vapores de gasolina, benzeno, essas coisas?” “Sim”, respondi, já meio decepcionado comigo mesmo, lembrando da tinta automotiva usada no Tracer 72h antes. Exames para todos os lados me foram requeridos: sangue, glicemia, urina….Nebulização, raio-X torácico e facial, medição de pressão sanguínea também foram providenciados….Uma tarde todinha passando por essa via-crucis.

Vamos aos resultados dos exames: pulmões – OK, coração – OK, pressão – OK, Glicose – OK, sangue…

Minhas plaquetas estavam 5000 unidades por milímetro cúbico de sangue abaixo do mínimo, enquanto  a proteína C reativa que deveria estar abaixo de 5mg por litro de sangue estava com estratosféricos 61,30mg/l. O que isso indica?

Bom, o médico, fazendo uma avaliação dos resultados foi taxativo: embora uma baixa pequena de plaquetas, era um indicativo do que irá acontecer comigo no futuro se eu não usar  EPIs(especialmente máscaras): eu iria desenvolver um quadro de plaquetopenia(insuficiência de plaquetas), podendo evoluir para uma deficiência imunológica crônica, culminando até mesmo num câncer! Sem contar que, com a imunidade baixa, uma infecção oportunista poderia aparecer(como de fato o fez, segundo indicava o raio-X facial e o valor do PCR alto).

Mas o que causa tudo isso?

O que derrubou o organismo assim tão violentamente? Eu poderia falar trilhões de termos químicos, mas todos eles agrupam-se sob um mesmo guarda-chuva terminológico: COV(Compostos Orgânicos Voláteis).

Tirando as tintas à base de água, TODAS as demais(lacquer, enamel, PU, poliester…) contêm esses tipos de compostos químicos, tenham ou não aroma(o cheiro não é indicativo de presença/ausência de COVs, tenha isso em mente). Afinal, é possível dopar com outros produtos que neutralizem o odor emitido.

Claro, que nem todo COV é nocivo, mas alguns que estão presentes em tintas e solventes são, e muito. Exemplos mais comuns são o benzeno e clorometano, mas a lista é bem maior, incluindo elementos sintéticos ou naturais e com a única característica efetivamente comum sendo a presença do carbono, que é tido como elemento essencial da vida, daí o termo “orgânico”.

Como falamos de uma gama muito extensa de substâncias, vou me ater aos mais comuns no nosso ramo: aguarrás, terebentina, thinner automotivo, soluções enamel e soluções lacquer.

A aguarrás substituiu a benzina, que era muito tóxica. Ainda assim, a aguarrás(white spirit ou mineral spirit) ainda não deve entrar em contato com a pele por ser irritante e nem deve ser inalado, por irritar as vias aéreas e ter efeitos narcóticos!

A terebentina(turpentine) tem a mesma característica irritante da aguarrás, mas ela ainda tem um poder destrutivo maior, atacando pulmões, danos ao sistema nervoso central(cérebro, cerebelo e medula), além de causar falência renal se ingerida.

As resinas poliéster(comuns em algumas tintas) causam irritação e ainda podem ser absorvidas pela pele. Se inaladas, causam tosse, irritação, dificuldade em respirar, gera um efeito de sedação junto ao sistema nervoso central e até mesmo acúmulo de fluido nos pulmões.

O tolueno(metil-benzeno), é uma das substâncias mais tóxicas, ainda assim mais facilmente encontradas em nosso cotidiano porque está presente em colas, gasolina, tintas, removedores, agentes de limpeza, fumaça do cigarro e até em cosméticos. No mundo do plasti, o tolueno pode ser encontrado em tintas PU, já que ele é usado na sintetização do uretano (o PoliUretano é uma cadeia de uretanos). Inalação do tolueno tem sua periculosidade aumentada à proporção do tempo e da quantidade a que se expõe o corpo. Pode ocorrer uma alergia leve nos olhos e nariz no início. Um pouco mais de tempo de exposição causa dor de cabeça e confusão mental num estágio mais prolongado. Num estágio ainda de maior exposição, dá náusea, anorexia, confusão, hilariedade, perda do autocontrole, perdas momentâneas de memória, nervosismo, fadiga muscular, insônia e até efeitos de intoxicação aguda, como alucinações, desorientação e, em doses abusivas, pode levar à narcose(a famosa “viagem”).

Eu poderia me alongar ainda numa miríade de substâncias altamente tóxicas com as quais nos deparamos no nosso dia-a-dia, mas acho que você já entendeu aonde quero chegar, certo?

Prevenção é a chave

Não adianta gastarmos uma pequena fortuna num aerógrafo H&S ou Iwata e nem em aftermarkets caríssimos para um kit enquanto economizamos com nossa segurança(e longevidade). Afinal de contas, estamos falando do nosso bem-estar!

Assim, é importante ter materiais adequados e um ambiente apropriado para o trabalho. Vamos falar dos EPIs.

Para quem não sabe, EPI é a abreviatura de Equipamento de Proteção Individual. No caso de um pintor, estamos falando de proteção essencialmente contra o contato com a pele e contra a inalação. Para o primeiro caso, não temos como fugir: luvas. Apenas alguns cuidados e pormenores: luvas são feitas geralmente de látex e podem ser do tipo de uso único, ou reusáveis.

Luva de Látex, banhada parcialmente em neoprene: uma opção para a pintura

Ainda que sejam equipamentos de proteção, as luvas de látex podem causar reações alérgicas em algumas pessoas, então é bom ter em mente se você tem alergia a esse material ou não antes de comprá-lo. Geralmente as luvas vêm com áreas com rugosidades para aumentar a aderência e evitar que o usuário deixe cair que está segurando escapulir. Como bônus para o caso dos modelistas, ela evita que a gordura corpórea contamine a superfície da miniatura(esteja ela pintada ou não). Algumas luvas ainda são banhadas em neoprene. Além desses dois produtos(Látex e Neoprene) é possível achar modelos no mercado compostas de Nitrilo e Vinil. Embora cada modelo tenha suas peculiaridades, todos eles devem ser mantidos longe de solventes fortes, aldeídos e cetonas.

Máscara semi-facial: deve-se ter atenção especial às condições, bem como à data de validade dos filtros. E SEMPRE usar de barba feita para garantir o efetivo isolamento das partículas nocivas.

Com as mãos protegidas, praticamente cessa a possibilidade de termos contato com o material químico através da pele. Então é hora de nos preocuparmos com nossas vias aéreas e usarmos uma máscara.

Há inúmeros modelos de máscaras disponíveis no mercado, as que no interessam são as do tipo semi-facial, compostas de base, inalador(onde vai(ão) o(s) filtro(s)), o exalador, a cinta(para prender no rosto) e o filtro propriamente dito(ou filtros, dependendo do modelo).

Aqui vão duas dicas para a máscara: NUNCA use máscara com barba, pois ela impede a correta vedação das nossas vias aéreas do ar contaminado. E verifique se o filtro que for usar é o modelo correto para o tipo de substância que irá enfrentar. No nosso caso, o filtro mais comum contra COV/VOC já resolve, dado que esses solventes mais fortes são todos variações de hidrocarbonetos(logo, compostos orgânicos).

Conclusão

Nós homens somos conhecidos por não nos atermos à nossa própria segurança. Mas isso cobra um preço alto e de forma desnecessária no longo prazo. Que meu caso sirva de alerta para evitar a repetição com outros colega com essa ameaça que vive rondando silenciosamente os modelistas, especialmente os que mexem com resinas e materiais automotivos. Façam como eu: aprendam a lição e não economizem na segurança, afinal se muita gente paga além de 400 reais num kit e 600 num aerógrafo, por que razão ficar de mesquinharia num par de luvas e numa máscara boa?

Quanto a mim? Não me sinto mal, mas ainda estou expectorando os pulmões e o maior problema adveio da queda: machuquei o cóccix e, como devem imaginar, ainda estou com dores e a locomoção não está tão simples quanto antes. Já me reequipei com novos e melhores EPIs mas, mais importante ainda, mudei minha mentalidade e pretendo usar a verba que eu disporia para comprar kits nesse primeiro semestre para fazer uma cabine de pintura com exaustor e filtro.

Mas isso é papo para outro post!

Bibliografia

https://estaoteenvenenando.blogspot.com.br/2015/07/tintas-e-vernizes-sao-toxicas.html

https://www.ecycle.com.br/component/content/article/35/1281-vocs-composatos-organicos-volateis-substancias-quimicas-sinteticas-toxicas.html

www.tintasepintura.pt/cov

https://www.ecycle.com.br/component/content/article/63-meio-ambiente/2205-o-que-e-onde-esta-tolueno-solventes-tintas-esmaltes-cola-gasolina-removedores-agentes-de-limpeza-fumaca-do-cigarro-riscos-saude-inalacao-pulmoes-garganta-olhos-tonturas-nausea-anorexia-confusao-regulamentacao-modos-de-evitar.html

https://www.epi-tuiuti.com.br/blog/profissoes/protecao-para-pintores/

www.supermax-brasil.com/index.php/2018/02/09/tipos-de-luvas-vantagens-e-desvantagens-dos-materiais/

http://www.poliresinas.com.br/teste/downloads/FISQP.pdf


Gostou da leitura? Dê uma passada na Loja da Usina dos Kits, confira dezenas de produtos para a prática do plastimodelismo e adquira já o seu!


Tags: , , , , , ,


About the Author

Engenheiro de computação formado na UFES e com diversos cursos na área de redes e tráfego de dados, absolutamente louco por carros, aviões, trens, tanques, caminhões, história e estratégia. É o braço técnico da UdK.



Back to Top ↑