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Published on março 1st, 2019 | by ES1

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Uma mulher no hobby: Entrevista com a Baronesa Vermelha

Passeando pelo instagram, deparei-me dia dessas com uma mulher bela e jovem montando um P-40 Warhawk AMT 1/48. Imediatamente parei e comecei a analisar a conta dela detidamente. Seu nome era baronesa_roja(Baronesa Vermelha em espanhol). Seus trabalhos eram assinados por Karla von Richtofen(mais uma alusão ao às alemão da IGM). Comecei a mandar mensagens despretensiosas em suas postagens e, quando menos esperava, estávamos papeando. Surgiu a idéia(lógica a meu ver) de fazer essa entrevista com uma entusiasta dos kits bem fora do comum: uma jovem universitária e fã de automobilismo.

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P-40 AMT 1/48 em distintas fases de montagem.

Como nossos amigos da América Central enxergam o hobby? O que traz uma mulher a praticar uma atividade vista por muitos(erroneamente) como intrinsecamente masculina? Qual sua história? É com grande prazer e orgulho que trago até vocês uma entrevista com a Baronesa Vermelha! Ela nos cedeu uns minutinhos de sua preciosa agenda para uma conversa bem esclarecedora e agradável sobre o plastimodelismo, o cenário no México e a participação feminina em nosso passatempo predileto.

Usina dos Kits: Muito obrigado, antes de mais nada, por nos conceder essa entrevista. Que tal apresentar-se para o público? Como se chama, Baronesa?

Baronesa_roja: Olá, amigos! Meu nome é Karla.

UdK: De onde você é, Karla?  Qual sua idade?

Karla: Sou da Cidade do México e tenho 24 anos.

UdK: Como deve imaginar, não temos como não citar sua presença no hobby. Como descobriu os kits? Há quantos anos vem praticando?

Karla: Eu conheci o plastimodelismo por conta de meu pai: quando era menina, ele montava miniaturas e, com os anos, acabou deixando a atividade aos poucos. Quando entrei na faculdade, minha atenção foi chamada por conta das maquetes arquiteturais que eu via. Como havia várias miniaturas que meu pai deixou sem montar em casa, decidi tentar a sorte.

Preparação das peças do StuG para a pintura

UdK: É fato que todo modelista tem aquele kit que amou montar e aquele que foi uma verdadeira prova de paciência e sanidade mental. Poderia nos dar exemplos desses kits que já tenham passado por sua bancada?

Karla: Comecei em abril do ano passado com um Zero da marca Tamiya. Eu adorei montá-lo, pois foi bem fácil. Depois, o verdadeiro teste foi um blindado, o StuG III da Bronco Models 1/35, que está sendo preparado para o Campeonato Nacional de Modelismo do México desse ano.

UdK: Seu primeiro kit foi um A6M5 Tamiya 1/48. Ele não é bem um kit para iniciantes, por necessitar de colagem de inúmeras peças e pintura, ao contrário de um kit snap. Como foi essa experiência “out of the box“?

Karla: Como foi meu primeiro modelo, tive a sorte de ter muitas pessoas por perto para me auxiliarem com dicas.

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Iniciando com o pé direito: A6M5 medalhista na Modelfest Ciudad del Mexico

Esse foi o resultado: medalha de prata no evento Modelfest da Cidade do México. O kit levou 2 meses para ficar pronto, mas o resultado me encantou. Especialmente porque ainda consegui usar duas técnicas distintas para fazer os descascados: sal grosso e Hair Spray.

UdK: Você considera esse passatempo como sendo caro e proibitivo no México? Que insumos são os mais fáceis e os mais difíceis de adquirir aí? Você tem marcas preferidas já de kits e materiais?

Karla:  Olha, aqui no México o hobby é meio caro, mas.. há opções para todos os bolsos, desde o entusiasta que monta aviões e pode recorrer a marcas como Revell, Monogram, Airfix e outras, até o modelista com um paladar mais refinado que chega a gastar 200 dólares em um único kit. Sobre a facilidade de achar materiais e kits, conseguimos com certa facilidade sim, seja na Internet ou em lojas físicas mesmo.

UdK: Infelizmente, há um grande preconceito e distanciamento aqui no Brasil das mulheres com o nosso hobby. Por que acha que isso ocorre? No México também há poucas mulheres no modelismo?

Karla: Eu acho que esse é um hobby que não tem foco nas gerações atuais. Além disso ele acaba sendo mais voltado ao público masculino, pois culturalmente, desde cedo, incutem em nós a idéia de que meninos brincam com aviões e carros, enquanto as meninas, não. Por isso é que chama demais a atenção uma mulher interessada no modelismo.  Outro problema muito grande é que a nossa sociedade ainda é muito machista, pois quando mulheres fazem atividades “de homem”, acabam sendo criticadas, menosprezadas, sendo acossadas, simplesmente pelo fato de serem mulheres. Felizmente, no México há muitas mulheres modelistas de grande talento!

UdK: Curiosamente, uma das razões mais repetidamente citadas pelas mulheres para não praticarem o modelismo é a falta de paciência. Você concorda com isso? Por quê?

Karla: Não. Eu acho que o motivo real, conforme explanei anteriormente, ainda é o fato de que o hobby é 100% focado nos homens pela indústria e, se somamos a isso o preconceito, chega-se facilmente ao porquê de praticamente não haver mulheres no modelismo.

UdK: Como entusiasta, qual a maior dificuldade que vê à entrada de novos praticantes no passatempo?

Bullying com novatos é uma das experiências mais cruéis que alguns curiosos têm do hobby, o que explica muitas vezes, o seu abandono prematuro

Karla: A primeira é que o hobby pode ser meio agressivo aos novatos. Muitos modelistas experientes se esquivam de ajudar os iniciantes, ou fazem críticas pesadas demais para nós. E obviamente, um ambiente hostil assim, desanima os entrantes logo de cara.

UdK: Analisando seu perfil, vi que monta de tudo um pouco: figuras, aeronaves, militaria e carros. Você tem alguma preferência por ramo/escala, ou monta de tudo um pouco?

Karla: De fato. Comecei montando de tudo um pouco… mas senti uma queda maior pelos aviões e os carros de competição.

UdK: Como é o plastimodelismo no México? Há muitos participantes e lojas? Há uma boa participação de jovens como você? Há muitos grupos e associações?

Karla: No México, na transição dos anos ’90 para ’00 o hobby teve um baque por conta da situação econômica, forçando muitas lojas a encerrar suas atividades. Com a internet e as redes sociais, no entanto, o plastimodelismo voltou com força: agora há mais lojas(online e físicas), bem como grupos dedicados ao  hobby(eu mesma pertenço a 10 deles, só na região da Capital). Sobre os jovens, é a questão.: em nosso país, o passatempo salta a geração dos adolescentes(eu sou uma exceção nessa minha faixa etária). Mas entre as crianças de 7 a 15 anos, tenho visto uma boa quantidade de participantes. Pode-se dizer até que estamos vivendo uma época de ouro do plastimodelismo em nosso país.

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Recessão e hobby não combinam bem, como nós sabemos.

UdK: Muito obrigado pela sua atenção, desejo-lhe grande êxito em sua carreira e hobby, Karla. Gostaria de deixar suas considerações finais para seus seguidores no México e Brasil(certamente uma galera vai começar a segui-la a partir de hoje….). Você tem algum recado para as mulheres interessadas no mundo do plástico, mas que ainda não tenham começado?

Karla: Agradeço muitíssimo à Usina dos Kits por dedicar um tempo a me conhecer, bem como a meu trabalho 😊😁 . Às meninas(bem, mulheres em geral), eu recomendaria que pratiquem o plastimodelismo. É um hobby muito bonito que fomenta a disciplina e, mais que isso, ajuda a exercitar habilidades como a coordenação e concentração. A mim, ajudou demais para o relaxamento e eu as convido a praticar o modelismo de forma recreativa, com modelos simples e mais baratos. Uma dica que lhes dou é que montem para o prazer única e exclusivamente de vocês, sem a necessidade de buscar agradar terceiros, divertindo-se bastante. Há muitos fóruns, com pessoas que ajudam com o maior prazer, dos quais vocês deveriam participar. Mando um forte abraço desde o México. Se precisarem de ajuda, estou aqui para dar-lhes uma mão. 😁

Com carinho para os fãs brasileiros.

Karla v. Richtoffen

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About the Author

Engenheiro de computação formado na UFES e com diversos cursos na área de redes e tráfego de dados, absolutamente louco por carros, aviões, trens, tanques, caminhões, história e estratégia. É o braço técnico da UdK.



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