História

Published on julho 18th, 2018 | by ES1

0

A guerra Indo-Paquistanesa de 1971

Introdução

Olá pessoal! Dando prosseguimento aos posts “Tempestade na Caxemira”, vamos à terceira parte que retrata o embate entre as duas potências asiáticas travado em 1971. E por que não se chama de tempestade na Caxemira? você pode estar se perguntando. O motivo é simples: esse embate não ocorreu por causa dela. Na verdade, trata-se de um território completamente diferente geografica e culturalmente falando: o Paquistão Oriental.

Sim, a maioria de nós nasceu, ou pelo menos estudou, quando havia apenas uma Alemanha e um Paquistão, mas se rebobinarmos a fita da história um pouco, veremos que nem a Alemanha e nem o Paquistão passaram sua história toda sendo uma nação apenas, ainda que por razões completamente diferentes. Foquemo-nos no Paquistão.

Conforme já dito, o British Raj foi devolvido às populações locais, sendo que onde houvesse maior massa de muçulmanos, o governo seria muçulmano e o mesmo valendo para os hindus, o que ocorreu sem maiores problemas(além do deslocamento de milhões de pessoas) à exceção da Caxemira que era regida por um hindu, mas com população majoritariamente muçulmana, o que daria origem às guerras de 1947 e 1965.

Índia e Paquistão: lições de ’65 aprendidas

O embate em 1965 rendeu aprendizados valiosíssimos para ambos os lados. O Paquistão, no entanto, não aproveitou tão bem seu tempo livre, enquanto a Índia resolveu aproximar-se de vez da URSS(mesmo não sendo um país comunista) para reequipar suas forças armadas, que eram um amálgama de materiais ingleses, franceses e americanos. Atenção especial foi dada à Marinha, que passou a receber unidades de superfície muito mais novas e numerosas para evitar sua inação em períodos críticos, como ocorreu em 1965.

Ao se aproximar da URSS, os indianos fizeram compras (literalmente) massivas de armas de todos os tipos: caças(MiG-21),helicópteros(Mi-4), radares, blindados(T-55), armas leves, navios… Já os paquistaneses, voltaram suas atenções à China, que em 1962 tinha inciado e vencido uma guerra com a Índia, para complementar o material americano embargado, já que eles foram contra a guerra de 1965 e só recentemente, seu fluxo estava voltando ao normal.

Por outro lado, a Índia tinha feito uma jogada de mestre que renderia frutos em 1971: o Tratado de Assistência de 1970-71 com a URSS.

O equilíbrio entre super-potências no Oceano Índico

Após a saída da Grã-Bretanha, a nova ordem bipolar do planeta fez-se sentir naquela região a partir do fim da Guerra de 1965. Com os soviéticos intervindo em Tashkent, tanto indianos, quanto paquistaneses se viram sob a crescente influência soviética para contra-balançar os americanos. Por questões ideológicas e práticas, os indianos afastavam-se dos EUA(ainda que nunca tivessem cortado relações na prática) e se aproximavam não só da URSS, como do Japão também para diversificar a origem das importações de seus bens de consumo, industriais e para modernizar seu parque bélico.

Ainda assim, tanto a URSS quanto os EUA tinham interesses convergentes de redução das tensões entre as duas pátrias. Mas isso não interessava muito para os nacionalistas indianos e paquistaneses…

Quando o Paquistão passou a integrar a SEATO(South East Asia Treaty Organization) em ’54, começou a receber muita ajuda militar americana até 1965, quando um embargo de armas americano começou, forçando o Paquistão a olhar para China e Europa. Com a deterioração das relações entre China e Índia após ’62 e a influência americana na região, os soviéticos foram se aproximando mais e mais dos indianos até assinarem acordos e tratados a partir de 1965.

Paquistão Oriental: bengaleses e biharis co-existindo

Dacca

Um dia normal em Dacca, antes da guerra…

Enquanto o Paquistão Ocidental era formado majoritariamente por pessoas de culturas não muito diferentes, o Oriental possuía diferenças mais acentuadas, o que não chegava a ser um problema se o governo(subordinado a Islamabad) não desse tão pouca voz aos bengaleses em favor dos biharis e pró-muçulmanos.

Os grupos que representavam os bengaleses começaram a buscar um lugar de voz ativa, o que chegou a ser apoiado pelos militares paquistaneses orientais, mas que era visto com desdém pelo governo conservador do Partido Socialista Paquistanês, que a duras penas autorizou os bengaleses a usarem o próprio idioma oficialmente em 1956(antes, apenas o Urdu era permitido).

Mais que cultural, as divergências entre Islamabad e Dacca(capital da província do Paquistão Oriental) entravam no meio político e mesmo projetos para tentar unificar ainda mais o povo paquistanês não funcionavam muito bem fora da parte Ocidental do país, devido às divergências políticas, culturais e religiosas com a parte oriental. Lá, foi criada a Liga Awami que seria a representativa legal da maioria bengalesa, tanto no governo local, quanto em Islamabad, o que foi imediatamente reprovado pela ala conservadora do governo socialista ocidental, gerando grande descontentamento naqueles que finalmente teriam voz junto ao governo central. Mesmo os 6 pontos levantados pela Liga Awami, que previam maior autonomia, isonomia(tratamento igual para todos, em termos legais) e agilidade na tomada de decisão das administrações locais não foram admitidos pelo governo central.

liga awami

Membros da Liga Awami em 1970

Nesse meio tempo, a Índia estava se posicionando favoravelmente aos bengalis e a palavra intervenção começou a ser dita com freqüência cada vez mais alarmante para os ouvidos de Islamabad. Ainda que os 6 pontos não fossem adotados, uma última tentativa de desescalar as animosidades foi feita, quando se mandou o Almirante Syed Mohammad Ahsan para debater soluções que encerrassem as hostilidades. Junto ao Tenente-General Yaqub Ali Khan, a missão chegou a um acordo envolvendo 4 itens principais:

  • Defesa, Segurança Nacional e a Moeda seria controlados por Islamabad;
  • As províncias ficariam livres para exercer controle tributário;
  • Repatriamento dos paquistaneses orientais e ocidentais em suas respectivas áreas; e
  • Divisão proporcional das benesses governamentais.

Apesar de ser vista com bons olhos por Índia, Paquistão Oriental, pelo presidente do Paquistão Ocidental e pela comunidade internacional, os militares paquistaneses ocidentais não só discordaram das conclusões da missão Ahsan-Yaqub(como ficou conhecido posteriormente essa última tentativa de reconciliação), como a dissolveram. Com isso, tanto o almirante, quanto o tenente-general pediram exoneração em protesto, o que dividiu os militares, especialmente no Paquistão Oriental.

Os moderados: Alte.Ahsan(esq) e Gen.Yaqub

Em seguida, a situação piorou de vez, com a Liga Awami liderando protestos contra o governo central e o presidente Khan cancelou a inauguração da Assembleia Nacional Paquistanesa que contaria com a presença dos Awamis. Logo os protestos ficaram tão violentos, que virtualmente acabaram com o restante do controle que Islamabad tinha sobre Dacca e ataques contra a população Bihari(pró-Paquistão Ocidental) foram feitos por bengaleses mais radicais.

Operação Holofote

Se antes o governo central usou militares ponderados para resolver a situação, agora era a vez de militares muito mais violentos serem mandados para o leste. A primeira operação adotada por Islamabad, chamou-se Holofote e tinha como objetivo, trazer à luz a “intelligentsia” por trás do movimento bengalês que buscava maior auto-suficiência. No comando do Exército Paquistanês Ocidental e das milícias muçulmanas, estava o General Tikka Khan, que seria chamado pela revista Life de “Açougueiro de Bengala” posteriormente. Antes de seu início, uma aura de total segredo pairava sobre os militares. Como as porções Oriental e Ocidental do Paquistão estavam separadas por mais de 1000km, dependia-se da Índia deixar o espaço aéreo aberto para que aviões de transporte civis e militares pudesse aumentar o número de tropas. Como em janeiro de ’71, Dheli fechou o seu espaço aéreo, os jatos da Força Aérea e da PIA saíam do Paquistão Ocidental, desciam até o Sri Lanka e seguiam para o Paquistão Oriental, abastecendo as guarnições locais para as operações futuras com um número de militares suficiente, mas em clima de total secretismo, já que muitos bengaleses eram policiais, militares e técnicos. Iniciando-se no dia 21 de março, a Operação Holofote(que envolveu 2 divisões de infantaria vindas da parte Ocidental) mirou em bairros de maioria hindu, nos dormitórios de estudantes bengaleses da Universidade de Dacca, nos distritos policiais e na sede dos Fuzileiros do Exército Paquistanês local(que tinham origem bengali e poderiam ser uma fonte de resistência). A operação estava planejada para terminar pelo dia 10 de abril, mas já pelo dia 5, boa parte da resistência tinha sido executada, desbaratada, ou havia fugido. Muitos alvos não-militares, como templos religiosos e a universidade foram atacados.

tikka khan

O açougueiro: Gen. Tikka Khan

Com o apoio dos clérigos muçulmanos, que desmereciam a população Bengali(especialmente as mulheres), começou uma sangrenta perseguição, que culminaria no genocídio de meio milhão de pessoas, além do estupro de cerca de 400 mil mulheres, o que levou a retaliações por parte da população bengalesa contra os biharis, ceifando a vida de 150 mil desses últimos. Entretanto, apesar da mão pesada do Exército do Paquistão, grande parte da Liga Awami fugiu para Índia, que passou a dar suporte às operações de resistência no Paquistão Oriental. Os paquistaneses também cometeram um erro de cálculo ao não se preparar para uma resistência prolongada contra ataques de guerrilhas que seria apoiado pelo RAW indiano por boa parte do ano de 1971(Operação Jackpot).

Mukhti-Bahini

Milícia Mukhti-Bahini sendo treinada pelo RAW

Com a contínua perseguição aos hindus e bengaleses por parte dos paquistaneses, milicianos e biharis, os indianos começaram a apelar à comunidade internacional, que demonstrou pouca ação, ainda que a fuga de políticos legitimamente eleitos da região do Paquistão Oriental não pudesse ter passado completamente em branco. Enquanto não vinha uma solução externa, os refugiados estavam correndo para o Índia, enquanto outros ficavam e lutavam contra os paquistaneses.

Preocupada com o fluxo interminável de refugiados, Indira Ghandi avaliou fria e objetivamente a situação, chegando à conclusão de que a guerra contra os paquistaneses na porção oriental do país e o apoio irrestrito à secessão de Bangladesh do Paquistão seriam as melhores opções à sua mesa. Consultando seu estado maior, Ghandi preferiu esperar a temporada de monções passar para que os tanques possam se movimentar mais livremente e a neve fechasse a porção norte do país para os chineses, caso pensassem em intervir.

Jackpot! Comandos bengaleses atacam portos paquistaneses

Chittagong

Porto de Chittagong, em 1970

Treinados no âmbito da Operação Jackpot, diversos guerrilheiros bengaleses foram treinados em operações de demolição e mandados para quatro portos(Chittagong, Chandpur, Narayanganj e Mongla) onde afundaram ou danificaram 17 navios e barcaças, pegando os paquistaneses de surpresa.

Escalando o tom

Após apelos à comunidade internacional e de esta se mostrar pouquíssimo interessada(o próprio Nixon falou: “Quem se importa com um bando de muçulmanos pardos morrendo na mão de outros muçulmanos?”) e de a Índia se vir sobrecarregada com refugiados, Indira Ghandi e seu gabinete decidiram iniciar hostilidades no leste para tornar Bangladesh independente do Paquistão. Obviamente, tropas no oeste foram postas em alerta para que se respondessem às esperadas investidas do Paquistão Ocidental. Acompanhando alarmado as preparações indianas, os paquistaneses começaram a usar um tom cada vez mais belicista e conclamaram a Jihad(de novo).

Em novembro a URSS pediu ao Paquistão para desescalar o tom agressivo, implicando que seria um enorme tiro no pé entrar em guerra sob tais condições. Não houve respostas positivas do Paquistão. Deve-se notar que a URSS também estava prestando auxílio para o Paquistão, vendendo maquinário e materiais diversos, assim como os EUA, ainda que em menor escala.

Desde a Operação Holofote, os indianos patrocinavam as milícias pró-Bangladesh, com armas, inteligência, logística e treinamento. Em outubro, as milícias Mukhti Bahini(“guerreiros da liberdade”, em bengali) fizeram diversos ataques por todo o Paquistão Oriental, ao que foram respondidos costumeiramente pelos ataques combinados das tropas de segurança paquistanesas e sua força aérea. Como de costume, a Força Aérea do Paquistão não só atuava na parte Oriental do país, como violava as fronteiras indianas incólume dada a ausência de caças indianos até outubro.

No mês de dezembro, tudo parecia estar pronto para o início das hostilidade: a neve interditou os vales que corriam pelo Himalaia, impedindo uma eventual participação chinesa; no sul, as monções haviam passado e o tempo estava totalmente seco. Por 8 meses, os indianos e paquistaneses se prepararam e restava apenas saber quem daria o primeiro tiro entre os dois países.

Operação Gêngis-Khan: início das hostilidades

O alto comando do Paquistão estava divisando como tirar a Índia da equação complexa do Paquistão Oriental. A resposta mais óbvia seria puxar o grosso das forças armadas indianas para a fronteira oeste. Para tal, pensou-se num reide aéreo massivo contra múltiplos aeródromos, ao mesmo tempo que a artilharia martelaria as posições defensivas indianas e os corpos mecanizados paquistaneses invadiriam a fronteira por várias rotas pré-estabelecidas para se entrincheirar em profundidade. O dia D seria em 3 de dezembro, na alvorada de um dia de descanso muçulmano, com a hora H sendo na troca da guarda das bases da IAF.

Apesar de o RAW indiano saber do ataque e de as aeronaves serem deslocadas para posições fortificadas, nenhum radar indiano pegou os aviões paquistaneses até estarem sobre as bases aéreas. Ainda que 183 bombas tenham sido lançadas com uma precisão de 65%, danificando 11 aeródromos com alguma extensão, o estrago poderia ter sido muito maior, se todas as bombas usadas tivessem detonado(ou se os paquistaneses estivessem usando munições próprias para a missão anti-pista). Mesmo assim, uma estação de radar P-15 foi posta fora de ação e diversos outros danos foram causados, sendo a única oposição, a da artilharia anti-aérea, que entrou tardiamente em campo.

Por sua vez, os indianos lançaram múltiplos ataques com seus Canberras a partir de 4 esquadrões, mirando em 8 bases paquistanesas diferentes. Sem oposição aérea e pegando de surpresa os paquistaneses(que talvez não esperassem um contra-ataque tão rápido), os indianos causaram diversos danos que perduraram por alguns dias e, pior ainda, a IAF montaria uma operação de ataque para garantir a superioridade aérea logo em seguida.

Abastecimento e guerra aérea sobre o Paquistão Oriental

Apesar de muitos meios militares paquistaneses estarem dedicados à fronteira que ia de Kashmir até o deserto de sal às margens do Oceano Índico, a ação esteve um tanto estacionária dias após a Operação Gêngis-Khan. Por outro lado, o contingente paquistanês no leste ficou bastante envolvido, com as primeiras escaramuças ocorrendo quando um grupo de Gnats indianos atacou e destruiu alguns aviões F-86 que haviam violado a fronteira com a Índia. Para piorar a situação, a frota aérea paquistanesa acabou por não ter disponibilidade total para os combates, devido a muitos técnicos de aeronaves serem bengalis afastados/perseguidos/presos/mortos no âmbito da Operação Holofote.

Guncamera

Câmera de um Gnat indiano, mostrando um F-86(ou CF-86) sendo atingido, durante um dogfight

Mas muito antes de os indianos se envolverem diretamente, os guerrilheiros do Mukhti Bahini sofreram nas mãos da Força Aérea do Paquistão, que os atacava com caças e helicópteros, além de usarem esses últimos para transportar comandos e manter pontes aéreas sobre áreas sitiadas pelos bengaleses. Até o mês de outubro, a PAF reinou nos ares Orientais e praticamente esmagou os rebeldes, que passaram a operar táticas de guerra irregular até as monções começarem, fazendo as aeronaves ficarem no solo até uma melhora na meteorologia.

Su-7BMK

Um Sukhoi Su-7BMK com camuflagem usada em 1971

Organizando as peças para o ataque, nada menos que 17 esquadrões foram deslocados para os arredores do Paquistão Oriental, que foi retalhado administrativamente em 4 zonas. Como novidade, seria o primeiro emprego de material soviético adquirido após ’65: três esquadrões de MiG-21FL, um esquadrão de Su-7BMK e 3 de helicópteros Mi-4(sem contar as baterias terra-ar S-75). No mais, havia esquadrões de Gnats(3), Canberras(1), Alouettes(2), Hunters(4) também para o combate e 9 esquadrões dotados de C-47, C-119, An-12 e DHC-4 e para suportar as operações ofensivas com a logística necessária. Contra todos esse poderio, Islamabad possuía alguns Shenyang F-6(MiG-19 copiado pelos chineses) que tinham saído já do Paquistão Oriental por falta de infra-estrutura. A negligência de gastos com defesa desde 1947 na porção Oriental teria todo o seu efeito visto agora, em dezembro de 1971. Com apenas um punhado de F-86 e CF-86 à disposição, ainda assim, eles conseguiram abater um caça indiano. Mesmo assim, perderam mais de 4 só no primeiro dia.

f-6

Pouco úteis no longo prazo na parte oriental por causa da distância aos centros de suprimento, os Shenyang F-6 tiveram ação mais limitada lá, ao contrário do que foi visto na parte Ocidental. Na arte, um F-6 faz um Su-7BMK sua vítima.

A própria IAF usou das limitações paquistanesas para planejar seus ataques: sabendo que os Sabres não tinham capacidade noturna e que só havia um radar paquistanês operando, sem artilharia pesada antiaérea ou mísseis, os Canberras faziam suas investidas impunemente à noite. Como não tinham capacidade plena de contra-ataque, os aviões da PAF ficaram camuflados em seus aeródromos quando não podiam dar combate. Ao mesmo tempo que não se podia acabar com a aviação paquistanesa(lutando muito bem quando se lançava ao combate), ela também malmente podia voar em Dacca. Isso liberou os indianos para ações de interdição voadas das bases aéreas ao redor da fronteira indiana com o Paquistão Oriental e do navio-aeródromo INS Vikrant (Sea Hawks e Alizé), que açoitavam as regiões portuárias(como Cox’s Bazar e Chittagong).

INS Vikrant

INS Vikhrant com alguns Seahawks e Alizés no convôo. Essa belonave era o ex-HMS Hecules(classe Mejestic)

Com a pressão quase irresistível vinda do ar, os paquistaneses começaram a recuar, ao mesmo tempo que  os indianos mantinham pressão constante não só sobre as tropas inimigas, mas também bombardeando aeródromos. O ataque começado dia 3 de dezembro, chegou ao dia 6 com o fim das operações coordenadas da PAF. Não demoraria muito para se chegar à conclusão de que o aeroporto que centralizava todos os F-86 Sabre estava e ficaria inoperante até o final do conflito, devido aos ataques contantes.

MiG-21

O famiso MiG-21FL “tigrado” da IAF em 1971. Até onde se sabe, apenas esse aparelho operou com essa camuflagem

Sem oposição, a IAF passou a devastar todo e qualquer foco de resistência que aparecesse no caminho, além de martelar a infra-estrutura inimigos(portos, pontes, indústrias, linhas de combustível, centros de comunicação…). Uma operação especial de choque foi providenciada no dia 16, quando a inteligência indiana soube de uma reunião das altas autoridades paquistanesas orientais. Em 15 minutos, um grupo de MiG-21FL do Esquadrão 28 decolaram e, munidos de mapas turísticos de Dacca, fizeram um passe com foguetes de 57mm na casa do governador. Ainda que tenha sobrevivido, o ataque foi tão surpreendente, que o governador demitiu-se imediatamente e fugiu para uma zona neutra da ONU.

Pressão aérea no Paquistão Ocidental

Radar P-15 indiano montado num caminhão ZiL-131. Essas estações móveis eram muito úteis para detecção de incursões inimigas e foram alvos prioritários dos paquistaneses.

Totalmente acossado na parte oriental do país, o Paquistão já estava requerendo ajuda de diversos parceiros internacionais que doaram aeronaves e enviaram pessoal para treinamento e conversão para novos tipos, além de receber apoio aéreo de diversos países. Se a porção Ocidental estava praticamente abandonada à própria sorte, a parte Ocidental não seria um passeio para os indianos, já que o núcleo da força de caças paquistaneses(agora contando com os Mirage IIIE/D/R) estava pronta para intervir nas incursões inimigas, estrategicamente alinhada com o exército para puxar e manter o grosso das forças armadas indianas na sua fronteira.

f-104

F-104 paquistaneses, representados numa decolagem de interceptação com os pós-combustores

Recentemente convertida para operações em mach2, a  Força Aérea do Paquistão punha muita fé nos novos Mirage III e nos F-104. Com a eclosão do conflito, os paquistaneses colocaram os deltas para a defesa de bases mais nevrálgicas, como Sargodha e instalações importantes como radares de interceptação. Outra missão dos Mirages consistiriam em ataques a bases indianas e interceptação noturna.

O Mirage causou substanciais estragos, atingindo aeródromos indianos impunemente, abatendo aeronaves de ataque e de reconhecimento noturno da Índia, sem a perda de uma única aeronave.

mirage iiirp

Mirage IIIRP, provavelmente sediado em Sargodha

Igualmente importante para o Paquistão, desde 1970 os Mirage IIIR estavam fazendo missões de reconhecimento sistemáticas de posições indianas e até geraram um incidente de fogo amigo quando 2 MiG-21 estavam tentando interceptar 2 Mirages IIIR à noite, mas acabou que o MiG-21 mais atrás disparou um míssil contra o MiG mais à frente!

mig-21fl

MiG-21FL da Índia, com um dos padrões de camuflagem mais comuns. Ao fundo, outro -21 com outro esquema monocromático de pintura

Mesmo assim, os Mirages não foram suficientes para equilibrar a balança de perdas paquistanesas que teve 77 aeronaves destruídas, enquanto os indianos perderam 42 aparelhos.

Guerra no mar

No mar, a situação paquistanesa mostrou-se ainda mais desesperadora, pois a marinha deles não tinha poder de fogo para atacar a dos indianos e nem havia escolta aérea para proteger as belonaves paquistanesas dos aviões de terra, dos aviões embarcados e dos meios navais indianos. A decisão mais acertada em termos práticos, era deixar os navios oceânicos em áreas defensáveis (retornaremos a isso mais tarde) e as canhoneiras, navios armados e barcos de patrulha que estavam na poção oriental deveriam ficar por conta própria, o que selou seu destino em mãos indianas: de 22 embarcações desse tipo, pelo menos 5 foram afundadas(PNS Comilla, PNS Sylhet, PNS Balaghat, PNS Jessore e mais 2 unidades), outras acabaram sendo danificadas e uma conseguiu escapar para a Malásia após reparos de emergência(PNS Rajshahi). Com o grupo de combate do Vikrant na Baía de Bengala, não havia nenhuma oposição séria de superfície.

PNS Rajshahi com o costado bem danificado por disparos e estilhaços

Sabendo disso, os paquistaneses enviaram seu submarino, o PNS Ghazi para a região, com o objetivo de atrapalhar as operações navais indianas e, se possível, destruir o Vikhrant. Meios para iso, ele possuía, já que era um submarino Classe Trench modernizado pelos turcos anos antes e até já havia participado de uma tentativa frustrada de atacar a Marinha Indiana em 1965. Dessa vez, o Ghazi não voltaria ao porto, sendo afundado sob circunstâncias misteriosas em 4 de dezembro, na área de Visakhapatnam .

O carrasco naval dos indianos: o PNS Hangor(S-131) da classe Daphne(original da França)

A revanche dessa perda seria dada no dia 9, quando o submarino PNS Hangor estava em operação perto do porto de Diu. Detectado pelos indianos, uma força de 4 embarcações foi caçá-lo, mas o Hangor abriu fogo primeiro, com um torpedo falhando em atingir o INS Kirpan, que prontamente respondeu com fogo de morteiros ASW, enquanto seu irmão, o INS Khukri, virou para interceptar o submarino. Nesse momento, o Hangor disparou mais um torpedo, que acertou a fragata Khukri(classe Blackwood, Tipo 14, britânica), detonado sob os tanques de combustível, com boa parte de sua tripulação perecendo. O Kirpan ainda tentou atacar o Hangor de novo com cargas de produnfidade infrutiferamente.

Pequenas lanchas, grandes estragos

Parada nos portos do Paquistão Ocidental, o grosso de sua Marinha achava estar segura, já que os indianos estavam com o grosso de sua Marinha combatendo a força de águas fluviais a mais de 1000km.

Estavam equivocados…

Apesar de o grosso dos combates estar na parte Oriental, a área Ocidental do Paquistão estava sob ataque incessante desde o dia 4 por parte da Força Aérea Indiana. Um submarino indiano estava na área de Karachi e a ISI paquistanesa já tinha advertido que pessoal soviético tinha suprido os indianos com lanchas de ataque novas. Com medo de Karachi(base da Marinha do Paquistão e principal porto do país) ser sitiado, a área estava sob constante patrulha paquistanesa, a fim de evitar um cerco.

Lancha de ataque Pr.205 Moskit(codinome Osa) da Marinha Indiana mostrando os casulos laterais onde ficam os mísseis Raduga P-15 Termit. Também são visíveis as torretas de auto-defesa AK630, tipo Gatling(à vante da super estrutura e na popa) a diretora de tiro MR-331 no mastro principal e o radar MR-104 para a auto-defesa no mastro de ré. Na foto a INS Nipat, que participou do ataque em 3 de dezembro

Durante a noite de 4 de dezembro, uma força de ataque composta por 3 lanchas de ataque, apoiadas por um navio-tanque e duas corvetas Petya III(de fabricação soviética) aproximou-se de Karachi às 22h30(hora local), sabendo que a aviação Paquistanesa não tinha capacidade de ataque noturno para dar início à Operação Tridente. Os radares pegaram sinais de superfície que foram identificados como navios inimigos, sendo disparados dois mísseis que atingiram o PNS Khaibar, afundando-o em alguns minutos. Interessantemente, o Khaibar mandou uma mensagem que dizia que ele fora atingido por uma aeronave inimiga!

khaiber

PNS Khayber, uma das vítimas dos mísseis P-15 em 4 de dezembro

Pouco tempo depois, uma lancha Osa disparou contra outro destróier(PNS Shah Jahan, ex-Classe C, britânico) e um navio que estava sendo escoltado por esse, o MV Venus Challenger. Carregado de munições, o Venus foi a pique quase imediatamente após uma violenta explosão, enquanto o Shah Jahan foi seriamente danificado.

Às 23h30, o caça-minas PNS Muhafiz foi atacado por mais um míssil P-15 de uma lancha Osa. Os danos foram tão extensos que o Muhafiz foi à pique sem nem dar tempo de mandar uma mensagem de emergência para o QG paquistanês. Quando a lancha PNS Qasim, que viu o Muhafiz explodir no horizonte, chegou para investigar o ocorrido, já não havia nada além de destroços e sobreviventes na água.

Para fechar a noite de ataques, um última lancha aproximou-se do porto e disparou seus mísseis contra as instalações de armazenamento de combustível, incendiando-os parcialmente. Deve ser mencionado que atacar alvos fixos de superfície não era algo necessariamente esperado do sistema de armas da Osa, especificado para a guerra naval.

Embora não tenha tentado atacar imediatamente as lanchas, que eram esperadas para voltar ao porto de Okha imediatamente, a Força Aérea Paquistanesa lançou uma incursão contra o referido porto dias depois. Esperada pelos indianos, os danos foram de pouca monta e as lanchas não estavam na base, porque decidiram escapar para oeste, fundeando-se em Gawadar e esperando 3 dias antes de voltar.

Completamente pega de surpresa, a alta cúpula paquistanesa ficou tão paranóica com as lanchas de mísseis, que atacou por engano uma fragata sua (PNS Zulfiqar, classe River, britânica). Para evitar novos ataques, todos os navios de combate seriam guardados dentro do porto, exceto um petroleiro carregado(por razões óbvias).

Na noite do dia 8, os indianos lançaram um segundo ataque, a Operação Píton: escoltada por duas fragatas classe Whitby(britânicas), uma lancha Osa aproximou-se de Karachi, quando foram detectados por um radar de terra inimigo. Imediatamente, a Osa arrancou contra o porto, travando em seus mísseis as coordenadas de 3 navios e o conjunto de tanques de combustível remanescente do ataque anterior. Efetuando os 4 tiros em rápida sucessão, todo o grupo de superfície indiano voltou célere para o porto amigo mais próximo.

Karachi

Instalações portuárias em Karachi após o ataque indiano.

Os mísseis P-15 atingiram o petroleiro militar PNS Dacca(afundado), o SS Harmattan(inglês, afundado), o SS Gulf Star(panamenho, danificado) e os tanques de combustível restantes da área de Kemari que não tinham sido atingidos no primeiro reide. Com a perda de praticamente 50% do estoque de combustível num espaço de 7 dias, as operações navais paquistanesas cessaram, a força aérea foi seriamente prejudicada e as marinhas mercantes passaram a evitar o porto de Karachi, dando um duro golpe na economia paquistanesa.

E as demais nações como se comportaram?

Como membro da SEATO, o Paquistão tinha o apoio dos EUA sob a batuta de Richard Nixon, da Grã-Bretanha e da França. Lembrando que indianos e chineses estranharam-se na guerra de 1962 e que  China e EUA estavam estreitando laços após o cisma entre chineses e a URSS durante a era Kruschev, basicamente a Índia só pôde contar com um único aliado: a União Soviética.

Com o tratado de assistência mútua, os indianos não apenas passaram a ter acesso a material bélico russo, mas também havia uma condição muito clara de que, se um dos assinantes do tratado estivesse em risco militar por estrangeiros, o outro era obrigado a dar ajuda.

Do lado paquistanês, Nixon conclamou Kissinger a falar com os ingleses, ficando acertado que mandariam uma força-tarefa da Royal Navy para fechar a Índia pelo oeste(liderada pelos porta-aviões HMS Eagle e HMS Albion), enquanto a 7ª Frota da USN rumaria para a costa oriental daquele país(capitaneada pelo USS Enterprise) a partir do Golfo de Tonkin em 10 de dezembro para fins de “resgatar pessoal americano no Paquistão Oriental”.

HMS Eagle. No seu convôo podem ser vistos aviões Gannet e Sea Vixen

Os países muçulmanos também prestaram grande assistência, enviando aviões e pessoal: Arábia Saudita, Irã, Jordânia e Líbia doaram F-86, Mirages e até novíssimos F-5 para auxiliar o esforço de guerra paquistanês.

Por mais controverso que pareça, a URSS estava ajudando a Índia e Bangladesh(ambos territórios de tendência democrática)e tentou evitar que o Paquistão entrasse na guerra, enquanto os EUA estavam apoiando de forma consciente o regime de Islamabad(uma junta militar socialista) a empreender genocídio(ainda que não diretamente). Até mesmo internamente, houve um racha na base de apoio de Nixon com a divulgação do telegrama sangrento.

Destróier soviético Pr.61: veloz, esse era um dos tipos de navios de superfície que participaram da operação de blindagem da Índia

A China participou, enviando armamentos e munição para os paquistaneses, mas não fez muito mais que isso, aborrecendo os americanos, que não elevaram o tom contra Beijing, com medo de ameaçar a conferência que seria realizada no ano seguinte.

Para contrabalançar, a URSS de Leonid Brezhnev estava monitorando China, EUA e Grã-Bretanha. Assim que a inteligência soviética soube da movimentação das forças navais anglo-americanas, despachou ordens de emergência para o Diretorado da Esquadra Soviética, urgindo que todas as forças navais nas imediações se dirigissem para montar escudos contra a aproximação das marinhas adversárias, contando que, quem chegasse primeiro, bloquearia o caminho do oponente(com sorte, sem um engajamento naval). 

kara

Cruzador classe Berkut-B da Marinha Soviética, fotografado por uma aeronave da OTAN. Nota-se o helicóptero Ka-25 na plataforma de vôo e, na popa, a porta aberta do compartimento do sonar rebocável

O primeiro grupo zarpou de Vladivostok no dia 6 de dezembro, seguido por um segundo grupo no dia 13, compreendendo submarinos nucleares de ataque, de mísseis e unidades de superfície com capacidade ASW e ASuW, com o intuito de cortar o caminho de americanos e ingleses.

Aparecendo nos radares e sonares adversários, os submarinos soviéticos emergiram nas imediações de Chittagong, Karachi e Dakha, colocando as forças americanas e inglesas no seu alcance de ataque. Perdendo o timing, ingleses e americanos não puderam intervir sem arriscar envolver os navios soviéticos no conflito.

Ocidente pressionando

Na parte Ocidental, os paquistaneses não fizeram muito melhor, inciando múltiplos ataques terrestres nas áreas da Caxemira, Punjab e uma força blindada(nucleada em tanques Patton) avançando pelo Rajastão. De todos esses ataques, apenas os da região da Chamb, na Caxemira, causaram problemas mais sérios, forçando uma retirada indiana.

Preparando para segurar terreno estratégico numa área fortemente minada pelos paquistaneses, os indianos moveram tanques T-55 com detonadores de minas(provavelmente do tipo KMT-5) para limpar o terreno, dando espaço para os engenheiros de combate alargarem a brecha, criando uma cabeça de ponte sobre o ria Basantar, na área de Shakargarh . Os paquistaneses responderam com pesado fogo defensivo e alguns tanques foram despachados para remover os indianos da área. Para dar tempo de limpar o campo minado, 3 tanques indianos iniciaram um ataque sobre os paquistaneses numa área ainda com minas, atraindo um primeiro tanque, que foi destruído, mas causando a perda de um blindado indiano e de um dos comandantes. Um segundo ataque mecanizado paquistanês se seguiu e outro tanque indiano foi posto fora de ação. Pelo seu lado, os paquistaneses perderam mais 10 blindados, enquanto o tanque indiano restante tomou um tiro e sofreu um princípio de incêndio. Ordenado a abandonar seu veículo, o oficial em comando, o tenente Khetarpal recusou, e continuou atirando nas forças adversárias e as segurando o quanto podia até que um segundo disparo inimigo destruiu seu blindado, matando-o.

Montando ataques massivos, incluindo uma carga direta de tanques contra os inimigos, os paquistaneses não só não conseguiram avançar, como foram contra-atacados a partir de 6 caminhos desminados diferentes, com o exército indiano fazendo várias penetrações territoriais e estando à ponto de capturar Sialkot. Esse engajamento foi conhecido como a Batalha de Basantar.

vijayanta

Fabricado sob licença na Índia, o Vijayanta I era um Centurion com blindagem bem mais leve que a versão original, mas mantinha a arma Royal Ordnance L7 de 105mm, capaz de abater os tanques inimigos bem antes de eles colocarem o carro de combate indiano dentro de seu alcance

Foi nesse setor também que um grupo de blindados Patton paquistaneses enfrentou novamente os Centurions(a a sua versão produzida localmente, o Vijayanta I) indianos, parando os paquistaneses, mas com pesadas baixas para ambos os lados.

Já no Rajastão, a coluna de Pattons e de tanques Tipo-59 avançou contra o posto de fronteira de Longewala, onde um grupamento indiano de infantaria teria duas opções: lutar e ser esmagado por uma coluna blindada com infantaria mecanizada ou sair do posto e fugir a pé, sendo interceptado e destruído na fuga pelos paquistaneses.

Pelo menos a idéia era essa…

Cometendo o erro crucial de não fazer reconhecimento de terreno, os paquistaneses ainda perderiam o fator surpresa, já que um grupo de batedores indianos e uma aeronave de reconhecimento já tinham apontado o inimigo se deslocando à noite. Preferindo ficar e resistir, a guarnição indiana preparou-se da melhor maneira que pôr, minando o campo à frente, chamando a artilharia que tinha sido posicionada um dia antes nas imediações e trazendo armas antitanque e morteiros.

Um tanque com a infantaria avançando em Longewala: terreno aberto e areia fofa. Uma péssima combinação para blindados.

Começando às 0h30 locais, o ataque logo passou a sofrer a primeira dificuldade: o terreno arenoso tornava o trânsito de tanques muito lento e complicado, com muitas unidades atolando. A infantaria paquistanesa estava em pleno campo aberto que dominava a região(com o posto indiano sobre uma duna alta e fortificada). Quando o primeiro tanque chegou próximo demais da primeira linha defensiva, um PIAT o desabilitou, com outro tanque sofrendo o mesmo destino.

Jipe indiano com rifle sem-recuo, preservado no memorial da Batalha de Longewala

Numa posição escondida, mais alta, um canhão sem recuo aguardava para abrir fogo, tirando os tanques paquistaneses de ação, um a um. Para piorar, os blindados carregavam tanques de combustível externos e não os tiraram antes do ataque: à medida que eram incendiados, não só clareavam o campo de batalha, facilitando a mira dos indianos, como atrapalhavam e intoxicavam os soldados que escoltavam os blindados.

A infantaria acabou parando sua carga ao chegar na linha de arame farpado mais externa do complexo indiano, receando um campo minado. Quando os engenheiros de combate paquistaneses chegaram, levaram mais um tempo para descobrir que não havia minas anti-pessoal na região. Mas, a essa altura, toda a escuridão da noite já estava se perdendo. Detalhe importante: a  noite era de lua cheia, então já não havia lá muita proteção da escuridão antes.

Tentando sair da estrada principal para cercar o posto indiano, logo os veículos paquistaneses paravam na areia fofa e eram desabilitados por fogo de artilharia, direcionados da base indiana.

tipo 69

Tipo-59 chinês em uso por paquistaneses e capturado após ser abandonado pela tripulação no fracassado ataque em Langewala

Com o amanhecer, a situação que era ruim apara os atacantes, ficou desesperadora: um observador avançado indiano estava direcionando jatos Hunter e Marut para atacar os paquistaneses. Do total de mais de 100 veículos perdidos, 12 tanques foram desabilitados pelas forças terrestres e outros 22 carros de combate, pelos aviões.

Blitzkrieg para terminar a guerra

vikrant

Indianos no Vikrant lançam um avião de ataque Alizé, enquanto um Seahawk aguarda sua vez. Muitas missões da marinha foram para apoiar o avanço do exército e do Mukhti Barrini

A doutrina indiana de combate terrestre evoluiu a passos largos desde 1947, chegando ao ápice, na batalha de Asal-Uttar(em 1965), mas agora, com total domínio do ar na parte oriental, os militares hindus lançaram uma autêntica blitz contra o Paquistão Oriental por terra, usando as colunas mecanizadas seguindo por 3 direções distintas, convergindo para Dacca.

Para piorar, o comandante geral do Paquistão Oriental, o General A.A.K. Niazi implementou uma diretiva de que nenhuma retirada deveria ser empreendida a menos que 3/4 da força defensiva fosse eliminada pelos indianos. A postura geral paquistanesa assemelhava-se bastante à alemã no final da IIGM: criar pontos fortes(os Festungen, como o de Königsberg), gerando pontos de defesa auto-suficientes para resistir aos atacantes, ao mesmo tempo que poderiam lançar ataques de flanco ou contra as linhas de suprimento adversárias. Niazi mandou montar 34 desses núcleos de resistência.

T-55 indiano fora de ação, abandonado pela tripulação e com um soldado paquistanês removendo sua metralhadora DShK. Embora com grande superioridade, a guerra não foi um completo passeio dos indianos.

Embora bonito no papel e na explicação, na prática, as coisas não poderiam estar mais fora da realidade: não havia armamento antitanque suficiente, não havia tropas de infantaria de reserva e as milícias Mukhti Bahini infestavam o Paquistão Oriental, impedindo uma movimentação desimpedida dos paquistaneses e apoiadores. E os indianos não morderiam a isca.

Ao encontrar oposição, um subgrupo ficava para as operações de cerco, enquanto o restante seguiria em marcha. Caso houvesse alguma resistência mais séria, a aviação ou a marinha seria chamada para amaciar o terreno. Com a largada sendo dada no dia 23 de novembro, já em 16 de dezembro Dacca estava cercada, sem capacidade de ser reabastecida(já que o contingente aéreo tinha ido para Burma e por mar era impossível receber apoio). Muitas das fortalezas, ou foram isoladas e não deram combate(como Khulna, Commillia, Chittagong, Kushtia e Sylhet), ou foram abandonadas às pressas, com muito do armamento sendo largado para trás(como Jessore, Brahmanbaria, Laksham e Jhendiah). Apenas na área de Hilli houve combates decididos entre ambos os lados até a rendição final paquistanesa. 

Apenas a Brigada de Infantaria 36 estava em Dacca(que era sua guarnição original). Sem élan para o combate depois de tantos reveses no ar, mar e em terra, Niazi daria ordens para pouco mais de 25 mil soldados na capital para se renderem mesmo com uns 7 dias para os indianos se organizarem efetivamente para começar a atacar a capital, que deveria suportar por uma semana.

Tendo perdido áreas das províncias de Punjab, Kashmir e Sindh, um total de 15 mil quilômetros quadrados foram tomados do Paquistão, bem como 90 mil capturados, 25 mil feridos e 8 mil mortos. Pelo lado indiano, as perdas foram de 3 mil mortos e 12 mil feridos.

Acossado por todos os lados, o comandante da guarnição oriental, o Tenente-General Niazi, rendeu-se às forças indianas(lideradas pelo Tenente-General Aurora) no Hipódromo de Ramna em 16 de dezembro. As hostilidades acabaram oficialmente no dia seguinte.

Final

Com a rendição paquistanesa, a situação do país mostrou a sua completa precariedade de forma amarga: a população, manipulada pela mídia estatal, entrou em choque ao saber da extensão da derrota do seu país após tantas falsas vitórias e minimizações sendo espalhadas aos 4 ventos, havendo a queda do governo Khan(substituído pelo vice) e a instituição de um governo civil-militar, com poderes de instituir leis marciais com maior agilidade(o que se mostrou praticamente obrigatório). No conflito, o Paquistão teria perdido 50% de sua Marinha, 33% do Exército e 25% da Força Aérea, além do combustível queimado em Karachi e a interrupção do tráfego naval naquele porto, fora os prisioneiros de guerra que só voltariam para casa após a assinatura do Tratado de Simla, no ano seguinte, no qual a Índia devolveria todos os territórios capturados do Paquistão e Bangladesh seria reconhecido como nação soberana. A humilhação na derrota aumentou internamente a autonomia das províncias paquistanesas, pressionou uma reforma geral no treinamento das forças armadas, mas também fez nascer um projeto clandestino da ISI para a fabricação de armas nucleares, que nasceria em ’72 e terminaria em ’77, com o primeiro projeto operacional pronto para testes. A ISI também começaria a treinar milicianos e a os testar no Afeganistão como unidades irregulares para travar o Exército Indiano caso houvesse necessidade futura.

A Índia devolveu quase todos os territórios de bom grado(exceto alguns pontos-chave, totalizando 2000km²), satisfeita com o desempenho militar como um todo, emergindo com A potência daquela região. Os refugiados bengalis retornaram para agora Bangladesh e os cativos pró-Paquistão voltariam para sua nação após a formalização do tratado de 1972 e do de 1973, em Nova Dehli.

navio soviético

Navio soviético trazendo materiais para a reconstrução de Bangladesh em 1972, entrando no porto de Chittagong

Bangladesh, a nação recém-formada, recebeu grande apoio da Índia, que repassou equipamento paquistanês capturado para montar suas forças armadas, ao mesmo tempo que recebeu ajuda diplomática para o seu reconhecimento pela comunidade internacional. A relação com os indianos  passou a ser pendular, dependendo do governo: os Awamis eram pró-indianos, enquanto o partido rival BHP, é contra. O chineses foram os últimos a reconhecer sua existência e a política entre Dacca e Beijing é pautada pela relação Paquistão-China.

Países que interferiram indiretamente, procuraram sedimentar laços com ambos os lados: os soviéticos com os paquistaneses; os americanos e europeus com os indianos. De todas as nações estrangeiras, a que mais teve medo do resultado da guerra, foi o Irã, que chegou a cogitar e preparar a anexação da província fronteiriça do Baluquistão como zona de “buffer” para conter os indianos se o controle central de Islamabad fosse perdido.

E para nós, modelistas?

Agora é a hora legal! Se você curtiu a história, certamente poderá estar interessado em montar kits relacionados ao conflito, ou a pesquisar os esquemas de pintura. Essa seção é para você!

Vijayanta I MBT: pintura principal em Deep Bronze Green com camuflagem aplicada com pincel em Light Stone

1971

Os tanques T-55 indianos percorriam grandes distâncias, por isso, era comum eles terem um tanque auxiliar atrás da torre de tiro, durante deslocamentos. Eram pintados inteiramente em verde na época.

Hawker Seahawk FGA.6 do 300 Sqn da Marinha Indiana. A pintura dessas aeronaves eram sempre com a superfícies superiores em Dark Sea Grey, com as partes inferiores em Off-White(nesse caso) ou em Sky

Alize

O Breguet Br.1050 Alizé foi extensamente usado em 1971. Esse exemplar do 301.INAS é pintado em blue-grey nas partes superiores e off-white no restante

O MiG-21FL C992 pertencia ao 1.Sqn da Índia e foi pintado em três tons: sobre o Natural Metal Finish, aplicaram-se os tons Sand e Chocolate

A INS Nipat(K86, foto) participou da Operação Tridente, de 3/12/71 junto das lanchas INS Nirghat(K89), INS Veer(K82). A Operação Píton foi empreendida pela INS Vinash(K85) em 9/12/1971.

Tipo-59

Os NORINCO Tipo 59 usados pelo paquistão eram geralmente pintados em camuflagens de dois 2 tons: Desert Sand e Dark Green

f-104a

Pertencente ao 9.Sqn, esse F-104 esteve envolvido nos conflitos de 1971, abatendo um avião Alizé da marinha inimiga. Os F-104 eram em Natural Metal Finish, sendo que uns tinham uma faixa anti-glare à frente de cabine e outros apresentavam todo o radome do nariz preto.

F-86

Esse North American F-86 estava estacionado em Dacca, participando dos esforços quase heróicos de defesa aérea dos paquistaneses entre os dias 3 e 6 de dezembro de 1971, sendo alocado ao 14.Sqn. Provavelmente acabou capturado e repassado à Força Aérea de Bangladesh, se não tiver sido destruído no solo

O Shenyang F-6A é uma cópia do MiG-19, equipando diversas unidades paquistanesas. O “1817” do 15.Sqn especificamente tem o crédito de ter derrubado um Su-7 indiano. Assim como a maioria dos aviões de caça paquistaneses, ele era em natural Metal Finish

Bibliografia

The Rise of Indian Military Power: Evolution of an Indian Strategic Culture

https://defence.pk/pdf/threads/a-touching-tale-of-71-war.38768/

India: The Years of Indira Gandhi

Transition to Triumph: History of the Indian Navy, 1965-1975

https://timesofindia.indiatimes.com/india/US-forces-had-orders-to-target-Indian-Army-in-1971/articleshow/10625404.cms

https://www.rbth.com/articles/2011/12/20/1971_war_how_russia_sank_nixons_gunboat_diplomacy_14041

Tratado de amizade Indo-Soviético de 1965

https://2001-2009.state.gov/r/pa/ho/frus/nixon/e7/48542.htm

https://defence.pk/pdf/threads/pakistan-air-force-mirages-during-the-1971-air-war.43385/

http://www.orbat.info/cimh/iaf/IAF_1971_kills.pdf

https://hubpages.com/politics/Surrender-of-East-Pakistan-Really-a-Millitary-Failure


Gostou da leitura? Dê uma passada na Loja da Usina dos Kits, confira dezenas de produtos para a prática do plastimodelismo e adquira já o seu!


Tags: , , , , , , , , , , , , ,


About the Author

Engenheiro de computação formado na UFES e com diversos cursos na área de redes e tráfego de dados, absolutamente louco por carros, aviões, trens, tanques, caminhões, história e estratégia. É o braço técnico da UdK.



Back to Top ↑