História

Published on maio 20th, 2015 | by ES1

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Irmãos brasileiros em lados opostos da IIGM

A gente costuma dizer que há brasileiros em todos os lugares do mundo, não sem razão. Há compatriotas nossos no Nepal, Rússia, Finlândia, Suécia, Costa do Marfim, Índia, Bangladesh, Indonésia, Cingapura, China, Coréia, Austrália…Só para citar alguns destinos. Assim como somos muito receptivos a estrangeiros, há uma grande quantidade de pessoas daqui que deixam a terra natal com os mais variados objetivos e destinos. Assim sempre foi e não há porque antever alguma mudança à vista.

Obviamente, essa dispersão de nacionais brasileiros pelo mundo causa situações inusitadas e dramáticas até como a que falaremos hoje: os irmãos que lutaram sob bandeiras opostas durante a Segunda Guerra Mundial.

Gerd & Paul: unidos pelo sangue, separados pela guerra

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Gerd(esq) e Paul Brunckhorst nas adolescência

Filhos de Paul Karl Brunckhorst e Agnes Marie Ross, eles nasceram nos anos ’20 após a emigração de seus pais, que fugiam da situação caótica que a Alemanha se encontrava após a IGM. Aqui, tiveram Gerd e Paul, que estudaram na Deutsche Schule no Rio Grande do Sul até que o caçula(Paul) começou a apresentar sérias deficiências de saúde, como crescimento irregular, sendo mandado de volta à Alemanha para se recuperar.

Com o início da conflagração armada pelo continente europeu, Paul ficou em situação complicada: Hitler havia instituído que todos os alemães e seus filhos no exterior deveriam contribuir com a causa teutônica. Devido à sua frágil saúde, entretanto, Paul Heinrich Brunckhorst participou de trabalhos secundários, como os em fábricas de materiais de guerra.

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“Todos nós tomamos parte! – Contribuição de Guerra da Juventude Hitlerista”

Já Gerd Emil Brunckhorst teve uma adolescência intranqüila no Brasil por outros motivos: a polarização política dos anos ’30 estava cada vez mais separando a população de acordo com suas origens, classes sociais e orientações políticas. Alemães, italianos e japoneses começaram a ser crescentemente segregados em meio à sociedade brasileira até que, com a cisão entre Brasil e Alemanha+Itália(seguido dos torpedeamentos de navios brasileiros) inflamou os ânimos de vez, ocasionando a entrada do nosso país junto aos Aliados(abandonando a política pendular do ditador Vargas que tinha grande simpatia pelo Eixo).

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Era óbvio, infelizmente, que o Brasil não estava pronto para entrar em combate, mesmo com os acontecimentos levando nossa pátria cada vez mais próxima do conflito bélico com outras nações. Quando foi feita a declaração de guerra 1942, um grande número de imigrantes alemães alistou-se, voluntariamente, para servir na FEB, FAB e na MB. Nem é preciso falar que isso causou certa estranheza e até uma resistência dentro das forças armadas. Dentre tantos imigrantes estava Gerd, que se alistou no mesmo dia que declaramos guerra ao Eixo. Pouco tempo depois sua carta de convocação chegaria, ordenando para que seguisse para a Junta Militar mais próxima. De lá, seguiu para Mato Grosso a fim de treinar com os infantes que seguiriam para o TO europeu. Ao chegar no campo de treino, alguns oficiais e sargentos ficaram impressionados com a quantidade de boches/tedescos/fritzen que queriam participar do esforço de guerra nacional. Em 1944, Gerd partiu para o Rio de Janeiro a fim de embarcar para a Europa. Dias depois, desembarcaria em Nápoles, onde começou a trabalhar com obras e como intérprete(já que falava 3 idiomas).

Enquanto isso, Paul mandou uma carta dizendo que estava bem e feliz: recebeu uma carta do OKW na qual ele deveria se apresentar para treinamento e serviço ativo posterior. Com a escassez de recursos humanos, as forças armadas alemãs corriam cada vez mais seus olhos pelas fileiras de pessoas que tinham características menos “super humanas”: pessoas mais baixas, acima(ou abaixo) da idade de serviço, fora do peso ideal, não-arianos e estrangeiros. Nesse afrouxamento do regime de alistamento, Paul receberia uma chance de servir ao Terceiro Reich, sendo enviado para lutar no Front Oriental, tentando parar a avalanche do RKKA que rumava para dentro da própria Alemanha após vitórias decisivas na URSS, Ucrânia, Romênia e Polônia. A Alemanha estava retrocedendo em todas as frentes, sofrendo implacável ataque aéreo diário por parte da Commonwealth(RAF, RAAF, RNZAF, RCAF, RSAF), USAAF e VVS. Isso, sem contar os voluntários estrangeiros anti-nazistas(poloneses, franceses, thecoslovacos, gregos, iugoslavos) e os próprios brasileiros que iriam dificultar de sobremaneira a vida do Eixo.

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Brasileiros saudando e ajudando civis italianos em Massarossa, 1944

Em continente italiano, a primeira grande emoção que sentiu assim que desembarcou, foi ouvir um grupo musical formado por infantes brasileiros tocando “Aquarela do Brasil”. Seria um último momento de descanso antes da dureza do dia-a-dia.

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Escudo do 9º Batalhão de Engenharia de Combate do EB. O escudo mais interno era posto na lateral esquerda dos capacetes dos seus integrantes, conforme era Gerd Brunckhorst

Alocado ao 9º Batalhão de Engenharia de Combate(9ºBE Cmb), ele participou da guerra por apenas 5 meses: um acidente causou-lhe uma fratura na perna, levando-o para o hospital, onde se recuperava e trabalhava como intérprete tanto para prisioneiros se comunicarem com os oficiais brasileiros, como para os brasileiros internados que tinham de se comunicar de alguma forma com médicos de outros países. Em várias ocasiões conversou com soldados alemães capturados e, obviamente, houve surpresa em cada um dessas ocasiões por descobrirem a existência de alemães e descendentes diretos na FEB, lutando contra o nazismo(e que se recusaram a atender ao chamado da “Pátria Ariana”).

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Um dia típico do Front Oriental em 1944/5..

Infelizmente não se sabe ao certo o que aconteceu com Paul(em que unidade serviu, onde serviu, contra quem lutou ou a data certa de seu último combate), tendo desaparecido em 1945, nas últimas batalhas do Reich de Mil Anos que sucumbiria semanas depois. Seus restos nunca foram encontrados o que nos leva a supor que talvez tenha sido vitimado por uma granada de artilharia ou durante um bombardeio.

Ignorando o destino do irmão, Gerd preparava-se para voltar ao Brasil, entrando num avião que fez escalas em Oran(Argélia), Dacar(Senegal), Recife(Brasil) e, enfim , Rio de Janeiro. Poucos dias depois, recebeu a notícia da capitulação da Alemanha Nazista através do rádio.

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Enfim ela chegou em 1945!

“Já era esperado” – disse Gerd.

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O Sr.Gerd Emil Brunckhorst atualmente vive no sul do Brasil e faz parte da ANVFEB-RS

Referências

http://search.ancestry.de/cgi-bin/sse.dll?db=pubmembertrees&rank=1&gsfn=Heinrich&gsln=Brunckhorst&gskw=

http://www.dw.de/irm%C3%A3os-brasileiros-em-lados-opostos-na-segunda-guerra/a-18419183

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2702200510.htm

http://acervo.revistabula.com/posts/livros/centenas-de-brasileiros-lutaram-ao-lado-dos-nazistas

As fotos são de autoria das pessoas creditadas nelas.


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About the Author

Engenheiro de computação formado na UFES e com diversos cursos na área de redes e tráfego de dados, absolutamente louco por carros, aviões, trens, tanques, caminhões, história e estratégia. É o braço técnico da UdK.



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