História

Published on março 27th, 2017 | by ES1

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Tempestade na Caxemira(Parte 2)

No nosso último capítulo(que já faz muito tempo)…

Eis a situação pré-guerra em 1965 com a fronteira demarcada após a guerra de 1947.

…vimos que a área da Índia e Paquistão era populada por inúmeras tribos majoritariamente de origem hindu e muçulmana, sendo ambas mantidas sobre o controle da Commonwealth, até que foi feita a independência dos territórios e as áreas com maior proporção de muçulmanos seriam controladas pelos Paquistões(eram dois) e a parte com maior quantidade de hindus ficaria sobre controle da Índia. Tudo muito bom, exceto por um detalhe: quem quisesse, poderia não se unir a nenhum lado e a região de Jammu-Kashmir assim havia escolhido.

Essa região, por sinal, tinha a única área onde a maioria muçulmana vivia sob comando indiano. O Paquistão não gostou nada disso e tentou insuflar uma rebelião contra o Marajá Singh. O conflito começou a escalar para uma guerra local até que o governo dessa região autônoma pediu para os indianos ajudarem. A única condição pedida por Nova Dhéli era a Índia absorver a Caxemira. Isso aconteceu e levou os Paquistões a declararem guerra. O resto pode ser visto no nosso primeiro post sobre o conflito.

Paz frágil

Desde o cessar-fogo do conflito de 1947, havia um grande mal-estar na região e ressentimento mútuo entre os antigos beligerantes. Para piorar, Índia e China se desentenderam em 1962, o que ocasionou um breve conflito entre as partes(falaremos disso noutra matéria), com vitória dos Chineses.

Soldados da PLA e Índia(de costas) na fronteira entre as duas nações em 1962

Embora o general(e presidente) paquistanês Ayub Khan fosse cauteloso, a pressão militar e de algumas alas de seu governo o incentivaram a escalar as escaramuças entre seu país e a Índia, pois era consenso que como a Índia perdera o conflito com a China, ela deveria estar militarmente combalida e com baixo moral. Para fortalecer essa visão, em 1964, os vizinhos amargariam a morte do carismático primeiro-ministro Pandit Nehru. Seu substituto viria a ser Shastri Ji, que era visto com desconfiança pelos seus compatriotas.

Hazratbal: quando a revolta religiosa virou estopim de conflito político

Para quem não conhece, o templo Dargah Sharief Hazratbal fica localizado em Srinagar(que fica na região de conflito). Ele tem importância histórica para os muçulmanos, pela relíquia que ele guarda: o Moi-e-Muqqadas, que é o nome dado ao artefato que guarda(segundo as histórias) o cabelo do profeta Maomé. Com o desaparecimento temporário da relíquia, uma verdadeira onda de protestos tomou conta da região(controlada pela Índia) por conta dos muçulmanos lá residentes. Uma comissão foi criada para reaver a relíquia e, de quebra, passaram a protestar contra o mando da Índia na região. Desnecessário dizer que essa organização, o Comitê Awami(mais tarde re-estruturado como Tehreek e Hurriyat) caiu nas graças do Paquistão e passaria a se tornar uma dor de cabeça para os indianos.

Conflito por Rann of Kutch e escaramuças na fronteira(britânicos intervêm)

O Rann…Difícil acreditar que alguém entraria em guerra por causa desse pedaço de deserto de sal…

Eram, infelizmente, muito comum indianos e paquistaneses trocarem tiros de armas leves e breves salvas de artilharia ao longo da linha de cessar-fogo do conflito de 1947. Os paquistaneses passaram a fazer incursões de sucesso em solo indiano em 1965 na área do Rann of Kutch, que é uma área de pântano salgado no Oceano Índico. Entre janeiro e junho, os dois lados brigaram pelo controle da região até que o Reino Unido interveio para mediar a paz. Um acordo foi firmado e daria ao Paquistão  910km² daquela região 3 anos depois.

Operação Gibraltar: o estopim da guerra

Escalando ainda mais a situação, a visão que alguns paquistaneses tinham(e repassavam pro povo) era  que os muçulmanos caxemires estavam prontos para começarem uma revolta. Também acreditavam que a guerra contra a China tinha enfraquecido substancialmente os indianos e o suporte garantido dos EUA faria a diferença.

Esq: Típicos trajes que paquistaneses usaram para se infiltrar na Caxemira. Dir: infataria paquistanesa convencional avança contra forças indianas durante a Gibraltar.

Os paquistaneses então divisaram uma estratégia muito semelhante à que foi usada na Batalha do Bulge, em 1944: um grupo de sabotadores se infiltraria além da linha de cessar fogo para fomentar a resistência e para atacar pela retaguarda, enquanto uma veloz força mecanizada penetraria as defesas indianas, controlando a Caxemira de uma vez por todas.

Militares paquistaneses sobre um dos então novíssimos tanques Patton

Para isso, milhares de militares paquistaneses começariam a se infiltrar em território indiano em duplas ou trios, disfarçados como sendo civis e membros tribais a partir da manhã de 5 de agosto de 1965 com o objetivo de insuflar a população e cometer atos de sabotagem contra pontes, estradas, túneis, pistas de pouso e linhas de comunicação indianas. O plano foi idealizado com tanto esmero e seu sucesso era tão garantido, que muitos políticos e militares paquistaneses nem foram informados pelos responsáveis da Operação Gibraltar. A Força Aérea Paquistanesa não sabia de nada sobre a operação do Exército e da Inteligência Paquistanesa!

Ainda que uma ação bem pensada e executada por pessoal com altíssimo moral, os paquistaneses cometeram um erro básico de avaliação quanto ao estado de espírito dos moradores locais e da Índia(que, supuseram, não iria reagir e muito menos responder com uma guerra geral). Porém os sabotadores começaram a ser identificados e presos, escorraçados, ou mortos pelos locais com ajuda das forças indianas. Isso deu início a diversos combates pela região, com os indianos tomando posições-chaves nas montanhas com o apoio da artilharia e avançando sobre a fronteira paquistanesa em 6 de setembro. Enquanto os indianos capturaram o vale Haji Pir(8km adentro do Paquistão), os paquistaneses tomaram Uri, Poonch e Tithwal dos indianos. Era o início da guerra.

Operação Grand Slam: tentando cortar as linhas de suprimento indianas

A operação deveria tomar a ponte de Akhnoor, que fica bem mais ao sul(entre Naushera e Jammu), que é a principal via de abastecimento militar dos indianos de Jammu-Kashmir. Gozando de alta moral e de superioridade quantitativa e qualitativa, os paquistaneses usaram tanques M46 e M48 Patton que eram muito superiores aos AMX-13 inimigos que estavam na área, forçando a unidade indiana de fronteira a abandonar suas posições apressadamente.

Paquistaneses tomam uma bateria indiana de obuseiros QF25pdr de fabricação inglesa sofrendo pouquíssima resistência

O comando paquistanês, no entanto, cometeu um erro gravíssimo: no decorrer do combate houve uma troca na cadeia de comando, que causou uma pausa no ataque de diversos dias. Quando, enfim o exército do Paquistão voltou a avançar, deparou-se com uma barreira de indianos que, embora não pudessem contra-atacar, pararam as tentativas paquistanesas de avanço. O atraso foi tão danoso, que deu aos indianos a chance de lançar um assalto pelo Punjab rumo ao Paquistão, ameaçando o flanco direito da Grand Slam, forçando os inimigos a sustarem o ataque à ponte de Akhnoor devido à pressão terrestre e aérea.

Tanques AMX-13 foram vistos operando com os dois lados ao longo do conflito. Na foto, um exemplar que os paquistaneses capturaram dos indianos.

Rumo a Lahore

Tanque Centurion indiano sob camuflagem

Uma operação como a Grand Slam seria um risco sério se concluída com êxito, então os indianos resolveram lançar uma ação diversionária partindo de Khalra na direção de Lahore. Pegos totalmente de surpresa, os paquistaneses não conseguiram montar uma defesa efetiva contra os indianos e começaram a perder cidades como Jahman, retrocedendo para a próxima grande cidade(Burki). O grosso do grupo paquistanês se refugiou nessa cidade, enquanto pequenos destacamentos iam ficando no caminho para retardar os indianos ao máximo, junto com o apoio da artilharia de campo. Enquanto os paquistaneses queriam escorraçar os indianos e posicionar seu grupo blindado nas posições que tomassem, os indianos deveriam avançar e resistir aos contra-ataques até a força mecanizada indiana aparecer para consolidar os ganhos de terreno.

Quando boa parte da 1ª Divisão mecanizada paquistanesa apareceu, na verdade as coisas tomaram um rumo inesperado para os defensores: mesmo sem tanques, a infantaria indiana conseguiu atacar com sucesso e tirar de combate diversas viaturas do Paquistão mesmo sendo acossados por artilharia desde o dia 8. Com a chegada dos blindados indianos, a situação piorou de vez para os paquistaneses, que acabaram perdendo a cidade de Burki no dia 11 mesmo usando apoio aéreo. Dograi foi capturada em seqüência e Lahore estava ao alcance indiano quando o cessar-fogo foi imposto pela ONU.

Forças Aéreas em ação

Pegos de surpresa pela Grand Slam em setembro de ’65, os indianos pediram ajuda da IAF(Indian Air Force) para iniciar ataques contra as posições paquistanesas, o que foi atendido pelos esquadrões 45 e 202 armados com DeHavillands Vampire e Dassault Ouragans. A chegada dos aviões indianos causou danos às forças inimigas que requereram intervenção por parte da PAF(Pakistani Air Force). Por sua vez, a PAF organizou patrulhas com caças North-American F-86 Sabre. No primeiro encontro, dois F-86 derrubaram 4 Vampires sem perdas.

Durante a guerra de 1965 a maioria dos aviões ainda não usava camuflagens, como os F-104 Starfighters paquistaneses e os DeHavilland Vampire Indianos, ambos com acabamento em metal natural(natural metal finish).

As duas Forças Aéreas passaram a atuar em patrulhas de combate e em apoio às forças terrestres amigas até que os indianos começaram a bolar uma armadilha para os Sabres inimigos: uma formação de Dassault Mystéres faria ataques e serviria de isca para os caças enquanto um grupo recém chegado de Folland Gnats voaria mais alto, prontos para intervir. Dito e feito, os Mystéres começaram a acossar as forças terrestres paquistanesas que chamaram os Sabres. Quando um único F-86 apareceu(o ala teve problemas técnicos), 6 Gnats deram combate a ele. Logo um F-104 Starfighter deu às caras também para tentar expulsar os indianos e o saldo final foi de um Gnat que pousou num aeródromo errado e foi capturado. Um Sabre, mesmo pesadamente castigado, conseguiu retornar à base após os combates com os indianos.

Ao contrário do Paquistão que era armado pelos EUA, a Índia possuía uma variedade maior fornecedores de aeronaves: da França vinham os Mystéres e Ouragans(foto, inferior) e da Inglaterra, os Canberras, Vampires, Hunters e Gnats

Para piorar, um grupo de aviões da PAF resolveu atacar os principais aeródromos indianos que cobriam a região: Pathankot, Adampur e Halwara. Embora Pathankot tenha sido atacado com sucesso, os demais campos de pouso sofreram menos e castigaram os invasores. Se um ataque aéreo convencional não inutilizou os aeródromos, um ataque por forças especiais faria isso(pelo menos foi o que pensou o exército paquistanês ao lançar 135 Commandos sobre os aeródromos). Os que caíram sobre Adampur e Halwara foram presos pelos moradores e entregues à Polícia Indiana e os que tentaram atacar Pathankot passaram por bocados ainda piores: apenas 10 Commandos paquistaneses retornaram às linhas amigas, dias depois do mal-fadado ataque.

Os poucos aviões que trajavam camuflagens na Força Aérea Indiana em 1965 eram Hawker Hunter que usavam o mesmo padrão de cores da RAF. Os Canberras(como esse B(I)Mk.57) ainda voavam em Natural Metal Finish.

Resolvendo contra-atacar, a Índia mandou um grupo de Dassault Mystéres e Hawker Hunters contra o aeródromo paquistanês de Sargodha 33 vezes só no dia 7 de setembro! Recebidos com uma defesa eficiente e obstinada, os Mystéres e Hunters sofreram 5 baixas, uma das quais foi inusitada: um dos Mystéres avariado pela AAe engajou-se contra um F-104 e ambos se abateram.

Elevando as apostas, os indianos usaram bombardeiros pela primeira vez: um grupo da BAC Canberras fez uma penetração em Peshawar e Kohat. Embora o reide não tenha sido bem sucedido por não terem as bombas sido lançadas sobre os aeródromos militares, mostrou a completa deficiência da PAF de se defender desse tipo de incursão ao mesmo tempo em que não conseguiu abater os aviões durante a volta: um F-104 não conseguiu interceptar os intrusos e um F-86 foi escorraçado por um Gnat de escolta.

Enquanto os indianos usavam Canberras vindos da English Electric, os paquistaneses voavam os seus vindos da fábrica da Martin, nos EUA e trajavam uma pintura de verde escuro por toda a aeronave.

Tentando revidar, os paquistaneses organizaram um ataque com Martin B-57 Canberra e C-130 improvisados de bombardeiros. Essa investida não deu certo e a Força Aérea Indiana ganhou um momento de pressão, quando começou a abater aviões paquistaneses de reconhecimento e caça, além dos bombardeiros. Enebriada com os sucessos, a Força Aérea da Índia resolveu montar mais um ataque ambicioso com seus Canberras: dessa vez o alvo seria menos simbólico e mais prático – a estação de radar de Badin(leste de Karachi). Atacando à luz do dia, os bombardeiro0s do 16 Sqn voaram em baixa altitude, divididos em várias seções. A primeira apareceu nos radares quando, a 130km do “alvo”, subiu para uma altitude de 3000m e mudou de rumo, enquanto os demais bombardeiros seguiam para o alvo e se separaram em 3 grupos: dois subiram para 2100m para fazer as corridas de bombardeamento já quase sobre o alvo vindo de posições diferentes e com pouco intervalo entre si e o último grupo fez um ataque com foguetes de 68mm a apenas 9m de altitude do solo!

Todos os C-130E paquistaneses foram convertidos para bombardeiros e conseguiram destruir 17 aviões indianos em reides aos aeródromos. A tática seria copiada pelos indianos…

Mesmo com esse tipo de ataque, o Paquistão obteve maior sucesso na negação do espaço aéreo aos inimigos, ainda que a taxa de atrito tenha sido levemente maior pelo seu lado(1,8% contra 1,2%). A Índia precisaria repensar e agir com rapidez para sanar as deficiências de sua arma aérea quase que inteiramente equipada com aviões ingleses e franceses…

Batalha de Asal-Uttar: Patton-Nagar

Os novíssimos tanques Patton vindos dos EUA seriam o fator decisivo nos deslocamentos blindados do Paquistão

Voltando às forças terrestres, os paquistaneses resolveram avançar sua força para dentro do território indiano, capturando a cidade de Khem-Karam com as 1ª Divisão Blindada e 11ª Divisão de Infantaria tomando a cidade forçando os indianos da 4ª Divisão de Montanha a se posicionarem defensivamente ao redor de Asal-Uttar, que ficava alguns quilômetros para trás, seguindo pela rodovia que leva até à grande cidade de Amritsar.

M4A3E4 indiano: welded hull, suspensão VVSS, torre pequena para arma de 75mm e canhão longo de 76mm. Falta o freio-de-boca

Preparando o terreno para um avanço para além de Khem Karam(mirando as cidades de Amritsar e Jalandhar), os indianos inundaram alguns campos de cultivo, formando atoleiros para tanques e veículos. No dia 9 de setembro, várias dezenas de tanques Sherman, Chaffee e Patton apareceram ante os defensores e foram postos fora de combate um a um por todo o tipo de armamento que era possível empregar: desde tanques até canhões sem recuo. No final do dia, 99 tanques paquistaneses(a maioria, M47 e M48) foram perdidos e o comandante, General Lhan, fora morto. Os indianos condecoraram por bravura, o soldado Abdul Hamid por ter destruído 7 blindados inimigos.

A resistência indiana acabou se mostrando forte demais e diversos Patton foram destruídos. Mas, muito pior, diversos foram abandonados em pleno funcionamento e municiados!

Devido às enormes perdas de tanques Patton, o local do combate passou a se chamar “Cidade dos Pattons”(ou Patton-Nagar).

 

Batalha de Pillora

Um dia após a vitória em Asal-Uttar, os indianos partiram para o ataque em outro ponto da frente, explorando o setor de Sialkot. Abrindo caminho com a 1ª Divisão Blindada, os indianos se viram às voltas com a 6ª Divisão Blindada do Paquistão Ocidental. Embora o apoio aéreo paquistanês tenha enfraquecido a coluna de infantaria de apoio e de suprimentos, os blindados indianos avançaram e se protegeram dos ataques de flanco vindos através de Libbe-Chahr. Não só os indianos se seguraram contra os flancos, como impuseram uma derrota acachapante às forças do 11ºRegimento de Cavalaria paquistanês que cessou de existir como unidade coesa já no dia 11 de setembro(um dia após o início do ataque).

Brigadeiro Hari Singh recostado na torre de um M24 Chaffee inimigo posto fora de ação

Os paquistaneses sobreviventes de Pillora retiraram-se para Chawinda, onde se reagruparam. Os indianos, que poderiam ter feito ganhos territoriais mais decisivos, resolveram se reorganizar.

Os tanques Patton eram majoritariamente pintados em olive drab em geral e dispunham as marcações nas laterais das torres e na traseira dela.

Batalha de Chawinda(Operação Windup)

Asal-Uttar e Pillora tinham mostrado que a força blindada indiana era um inimigo a se respeitar. Preparando o próximo passo, os indianos reuniram 4 divisões(1 blindada) e os paquistaneses prepararam 2 divisões(1 blindada) e 1 corpo de artilharia, com 2 divisões de reserva. Pela lógica, o próximo alvo era cortar os suprimentos paquistaneses, capturando a ferrovia Sialkot-Pasrur.

Centurion capturado por forças do Paquistão perto de Chawinda

Com um rápido engajamento dos seus Centurions e Shermans, os indianos tomaram as duas pontas de um trecho da ferrovia que alimentava o exército adversário e destruiu 10 tanques inimigos no transcorrer da ação.

M4A1E6: os Shermans paquistaneses eram os com suspensão VVSS, cast hull, torre estreita para canhão de 75mm curto, mas repotenciados com armas longas de 76mm e novo freio de boca

Não tendo a opção de ficar assistindo essa ameaça, os paquistaneses juntaram duas divisões para reforçar as tropas locais e trouxeram mais tanques Patton, além de caça-tanques M36B Jackson e alguns Shermans. Essa força blindada se uniu ao 25º Regimento de Cavalaria, conseguindo parar o avanço indiano. Apesar das grandes disparidades(havia 10 indianos para cada paquistanês defendendo a área), os reforços paquistaneses chegaram na hora certa e quem quisesse se aventurar a atacar em céu aberto, era imediatamento alvo de fogo inimigo.

O M48 e M47 eram pintados em olive drab e possuíam pinturas em marrom ou amarelo-deserto. Essa última parece ser aplicada em campo, às pressas.

As perdas estavam tão pesadas entre os dois lados, que esse trecho do front ficou quieto até o cessar-fogo.

Os indianos, assim como os paquistaneses ainda dependiam de veículos da época da IIGM como os Shermans em suas forças blindadas. Os M4A3E4 eram pintados em olive drab e algumas unidades eram rajados de olive drab claro. A posição das marcações são semelhantes às dos veículos ingleses da Segunda Guerra.

Operação Dwarka: a marinha paquistanesa ataca!

Com a pressão dos meios aéreos indianos no norte, os paquistaneses resolveram involver sua marinha numa operação de engodo, na costa indiana ao preparar um ataque em Dwarka. Essa pequena cidade costeira indiana fica perto do porto de Karachi(que também é uma base paquistanesa) e tem um radar HF/DF em seu perímetro. Desconfiada que esse radar poderia estar sendo usado para guiar os bombardeiros Canberra, os paquistaneses resolveram fazer uma aposta: levar uma força-tarefa para Dwarka e destruir as instalações de radar. Mas o real objetivo seria chamar a Marinha Indiana para a briga e tirá-la do porto de Bombaim, onde um submarino (Ghazi) aguardava para torpedeá-los.

O PNS Ghazi era um submarino de ataque convencional da classe Tench vindo da US Navy(ex-USS Diablo). Ele estava de tocaia, aguardando a frota indiana

Para o Paquistão, o ataque pareceu ter sucesso, já que os reides contra Karachi cessaram e pensou-se que o radar tivesse sido destruído. Mas o que realmente ocorreu, foi que a maioria dos projéteis acertou prédios, partes da estação de trem de Dwarka e uma fábrica de cimento, enquanto outros caíram no solo fofo da região, sem detonar. Por outro lado, os indianos queriam uma resposta de sua Marinha que não conseguiu mandar nenhuma unidade para a área da ação, pois boa parte de sua Esquadra Ocidental estava no estaleiro, passando por reformas(incluindo 3 destróieres, 2 fragatas e 1 porta-aviões).

Cessar-Fogo e os Resultados

Após pouco mais de 3 semanas de embate por praticamente toda a fronteira entre os dois beligerantes, EUA e URSS se “uniram” para pedir que fossem iniciadas conversas de paz. Em Tashkent(Uzbequistão),  a URSS conseguiu que a Índia e o Paquistão voltassem às suas fronteiras do início de 1965(efetivamente perdendo todos os ganhos territoriais de um sobre o outro, inclusive do Rann of Kutch). Para a Índia, foi um tempo de reorganização da Marinha e da Força Aérea; para o Paquistão, foi um alívio, pois se a guerra continuasse naquele ritmo, provavelmente o Paquistão perderia. Ambas populações ficaram revoltadas com a decisão de seus governos de um cessar-fogo, mas os paquistaneses reagiram com mais violência, pois a imprensa de lá dava aos leitores a perspectiva de que estavam em ampla vantagem(Só muitos anos depois soube-se da verdade). Até hoje esse assunto é tabu no país. Já os militares indianos ficaram completamente arrasados com a volta às fronteiras originais após ter ganho tanto terreno numa guerra provocada pelo adversário.

Muito pior para ambas nações, os EUA impuseram um severo embargo de armas com vigência de 1 década. Os indianos correram pros franceses, ingleses e agora, para os soviéticos também. Já os paquistaneses procuraram os chineses e franceses. Para os dois lados, lições ficaram: os indianos aumentaram os gastos com a Marinha em 200%(gastos em ampliação e modernização) e estabeleceram um intrincado sistema de radares de alerta ao longo da fronteira, interligados a baterias anti-aéreas. Os paquistaneses precisavam repensar suas táticas de guerra terrestre. E ambos cometeram erros tão grotescos de inteligência, que precisariam passar por séria re-estruturação: o Paquistão, além de avaliar erroneamente o estado de espírito dos muçulmanos indianos antes da Operação Gibraltar, ainda estava enebriado com os ganhos territoriais do Rann of Kutch no início de ’65; os indianos simplesmente não tinham um organismo de inteligência para avaliar os movimentos do vizinho e, muito pior: quando a ordem de cessar hostilidades foi dada com base numa avaliação de que boa parte da munição estocada pelos indianos tinha sido depletada quando, na verdade, os estoques de munições de todos os tipos tinham sido consumidos em apenas 20%, enquanto os do Paquistão só tinham ainda em estoque 20% a 40% de material.

Com as sanções impostas por EUA e Inglaterra, paquistaneses viraram-se para a China(que pressionou a Índia com sua ameaça de uso da força nuclear), enquanto os indianos procuraram os soviéticos(cuja separação da URSS tinha se dado após o processo revisionista de Kruschev, que não foi bem recebido por Mao). As perdas econômicas de ambos países, no entanto, foram tão díspares, que o ciclo de boom financeiro no Paquistão Ocidental acabou, enquanto a Índia surgia como potência na Ásia e a URSS mostrava sua força política ao mediar o fim do conflito.

Para piorar, o Paquistão Oriental estava com grandes ressentimentos da sua parte ocidental por não ter forças de defesas adequadas, por ver o grosso do Exército Paquistanês ser sangrado na Caxemira(algo totalmente sem sentido para quem está do outro lado da Índia) e pelas crescentes perdas de autonomia impostas por Islamabad. As crescentes escaramuças entre indianos e paquistaneses ocidentais, somado aos desentendimentos entre paquistaneses ocidentais e orientais mostrariam que aquilo ainda não havia terminado…

Fontes

  • http://www.bbc.com/news/world-asia-34136689
  • http://in.rbth.com/blogs/stranger_than_fiction/2015/09/02/1965-war-why-india-quit-when-it-was-winning_394095
  • http://www.tanks-encyclopedia.com
  • http://urbanpk.com/pakdef/pakmilitary/airforce/war/wargallery/index.html
  • https://www.quora.com/Why-had-Pakistan-attacked-India-in-1965
  • http://www.dildilpakistan.net/2010/06/1965-war-gallery.html
  • http://www.bbc.com/news/world-asia-india-33815204

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About the Author

Engenheiro de computação formado na UFES e com diversos cursos na área de redes e tráfego de dados, absolutamente louco por carros, aviões, trens, tanques, caminhões, história e estratégia. É o braço técnico da UdK.



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