Kits

Published on julho 14th, 2014 | by ES1

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A cilada das goiabas!

Quando me propus a fazer uma enquete com meus colegas de hobby, uma pergunta me veio à cabeça como quase que obrigatória:

“Você já se arrependeu de ter comprado algum kit?”

Sim, pergunto pois todo o modelista que se preze já deu de cara com pelo menos um kit que prometia, mas tal como político brasileiro, não cumpria. E a quantidade de arrependimentos mesmo entre os mais experientes é espantosa.

Chamados de “goiabas”, esses produtos são mantidos nos catálogos de diversas empresas atualmente e são uma fonte inesgotável de dor de cabeça ao praticante que, a partir de determinado ponto, quer uma montagem razoavelmente acurada e tranquila.

Marcas tradicionais como Revell, Airfix, Hasegawa, AMT, Monogram, Italeri e Heller têm (todas) suas goiabas, algumas mais que outras, o que deixa o comprador numa sinuca de bico: como escapar delas?

A resposta é tão idiota, que me causa raiva quando chego em casa com um kit fuleiro: pesquisa. A internet está aí, e fóruns como Webkits, Plastibrasil, Kitmaniac e portais estrangeiros como o Scalemates, IPMS, Fine Scale Modeler, Scale Auto Mag, Internet Modeler e afins destrincham quase todos os kits atualmente no mercado!

Vamos a um exemplo do que acontece quando você NÃO faz seu dever de casa, ou quando se deixa levar(meu caso):

Eis o salafrário

Eu francamente nunca fui um viciado em USAAC/USAAF/USAF, preferindo as forças aéreas européias(especialmente a russa) e outros itens mais exóticos. Mas é inegável que um lindo, revolucionário e letal avião como o North American P-51D tinha que entrar na minha coleção, cedo ou tarde. Como eu estava trocando uns presentes de aniversário, surgiu a chance de levar, dentre outros, esse caça.

De antemão, eu sabia que a Revell mantém em seu inventário kits novos e antigos de determinados assuntos, vendendo-os em paralelo. Um deles é o P-51, que tem uma fôrmas novas e antigas. Como eu não lembrava da numeração, resolvi arriscar, esperando encontrar isso:

Um kit à altura histórica do P-51D(Academy, 1/72). Foto de Steve149c.

Não sei se meu erro foi confundir o Revell 04148 com o item 04182(P-51B) ou 00402(P-51D).

Engraçado, que no site da Revell alemã, a página do 04148(Mustang antigo) mostra um vídeo do 00402(Mustang novo)! Pelo menos se eu tivesse olhado as fotos, teria visto a barca furada em que eu ia me meter…

Seja como for, eu me ferrei lindamente.

Ao abrir a caixa azul, após minutos de reflexão, resolvi encarar o kit (já estou acostumado às goiabas que a vida me dá…). Imaginei que a precisão seria péssima e os encaixes, medonhos. Relevo? Alto, certamente.

É tenso como a gente fica embasbacado com um belo box-art e um esquema de pintura bonito, não é mesmo? As peças são amontoadas numa sacola apenas e a carlinga não tem uma embalagem especial para ela. Isso é muito danoso pois as peças transparente podem ser riscadas no transporte/armazenamento do kit. Para tirar o risco, tem de se lixar e polir a peça, mas que modelista que quer se arriscar para corrigir uma pisada na bola tão básica de um grande fabricante tão grande e tradicional?

Rebarbas! Rebarbas por todos os lados! >:(

Quando um molde é usado muitas e muitas vezes(milhares, na verdade) é natural que ele se desgaste. Muitas empresas em vez de trocar por outros mais modernos, preferem continuar usando esses moldes da época de Matusalém e se arriscando a ter sua imagem arranhada como “fabricantes de goiabas” a gastar um pouco de tempo e dinheiro para desenvolver um kit mais moderninho e que monte bem. É algo duro de entender sob qualquer ponto de vista: seja como empreendedor, empresário ou hobbista. É uma economia burra.

Close no piloto

De todas as peças, o piloto pelo menos não vai dar dor de cabeça: apesar de estar mal moldado(muito), de ter rebarbas(demais) e de estar numa pose esquisita demais(parece até estar se masturbando), simplesmente vou ignorá-lo e jogá-lo na caixinha de sobras(ou no lixo).

A arte do “CV-D” foi o que me chamou a atenção imediatamente e intimou a trazer esse P-51D pra minha bancada. Por outro lado, tenho 2 problemas com eles. Um eu descobri assim que abri a caixa e o outro, eu descobri na página da Revell. Vamos por ordem.

A folha de decalques, assim como a transparência estava solta! A folha de proteção(essa tira, que lembra papel de seda ou manteiga) estava num canto da caixa, enquanto os decalques estavam na extremidade oposta! Por sorte, a folhinha de decalques estava íntegra. Qual a lógica de ter tanto esmero com alguns kits e tanto desleixo com outros? Já o segundo problema eu só vi na foto da aeronave montada: o filme do decalque que representa o cocar da USAAF é fino demais, mostrando a pintura sob ele! Ou seja, terei de pintar a fuselagem numa cor só sob o cocar para evitar esse efeito ou trocar esse decalque por outro da caixa de sobras. Como não é garantido que eu tenha esse decalque e nem que ele não vá se comportar da mesma forma que o do da Revell depois de posicionado, mais trabalho desnecessário à frente…

Por falar em desleixo:

Erro de engenharia do kit

Na foto acima temos o canopy(ou carlinga, se desejar). Quando me refiro à erro de engenharia, não falo simplesmente da espessura do plástico que é maior que a blindagem de um tanque Tigre na mesma escala(!!). Por seu um modelo antigo, isso é algo compreensível e que se deve relevar. Também não me aborrece nem um pouco o fato de ser uma peça única(serrinha de PE, ou de Gillette servem pra isso). O que quebra qualquer modelista são as rebarbas mal-localizadas e as junções da carlinga com a árvore que são muito, mas muito grosseiras e curtas demais. Um alicate de corte simplesmente não entra naquele vão. Uma tesoura ou estilete podem trincar a peça (que é rígida e quebradiça). Também usar uma faca quente pode ser perigoso, já que pode derreter o canopy sem querer. As únicas soluções são serrar ou limar aquela conexão.

Acha que acabou?

Acha que sabe já o que é uma rebarba?

Então toma:

Ah, mas não parece ser nada de mais!

Parece ser uma inocente árvore com a hélice+spinner, elevadores(o par em peça única) e o assoalho do cockpit…

Desejaria reconsiderar?

Marcado em amarelo estão a rebarba que tem de ser eliminada e excesso de plástico que tem de ser lixado. Agora, como o plástico é duro e espesso no spinner, você deve serrar o excedente e limar com cuidado a área ao redor das hélices para evitar cortá-las(ah, as hélices apresentam bolhas e rebarbas!). Do jeito que está, nem entra no eixo!

Como sou brasileiro e não desisto nunca, em novo post mostrarei os desafios da montagem de uma goiaba como essae como contorná-los(para quem tiver esse ou outro kit ruim)… Espero, sinceramente que ele fique melhor que aquela montagem no site da Revell.

Só para por em perspectiva, olhem a evolução do item 04148 da Revell:

goiabas

Ano de lançamento: 1963(código H-619)

Nova caixa e novos decalques: 1975 (0047)

1978; nova caixa e novo código (04148)

Só a caixa mudou. Até os decalques são iguais(1994: 16 anos sem mudança nenhuma)!

Em meados dos anos 2000, a Alanger e a Revell fizeram uma parceria para lançar esse P-51D dos Red Tails. É o 04148 em roupagem nova e com código novo(40013).

Pro fim, chegamos ao nosso amiguinho CV-D.

Então eu te pergunto: por que manter um kit tão antigo e impreciso no mercado?

-Bom, ele deve ter ótimos decalques…

Eles são novos, mas finos demais. Não, não é pelos decalques.

-Ah, mas ele deve ser bem baratinho…

Bom, na Hobbyeasy ele é anunciado por 18 reais, fora frete. Para comparar, um Hobbyboss sai a 10 reais, um Academy custa 17 reais, um Tamiya ou um Hasegawa saem por 26 dilmas em média. Não, o Revell não é tão caro. Mas o Revell também não é o mais barato de todos também.

-Bom, se o preço não é o mais baixo e os decalques não são 100%, então, pelo menos, ele  deve ser preciso e montar bem, né?

No próximo post, eu respondo a isso…


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About the Author

Engenheiro de computação formado na UFES e com diversos cursos na área de redes e tráfego de dados, absolutamente louco por carros, aviões, trens, tanques, caminhões, história e estratégia. É o braço técnico da UdK.



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