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Published on janeiro 17th, 2019 | by ES1

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Análise UdK: Macchi C.202 Folgore Italeri Model Set

  • Histórico

C.202 Folgore da 81ªSquadriglia e suas marcações indicando Teatro Mediterrâneo de Operações

Olá modelista! Mais uma matéria quentinha para você que não pode passar uma semana sem montar uma miniatura. Hoje falaremos de um avião que eu queria há muito ter na minha lista de montagem: o Macchi C.202 Folgore.

O C.202 nasceu como um passo além em relação ao caça monoplano C.200 Saetta. Em vez de um motor radial, a nova aeronave seria propelida por um motor refrigerado por líquido. Outra novidade que o novo aparelho teria, era o cockpit fechado por uma capota(algo que nenhum design prévio de caça apresentava de série na Itália).

Motorizado por um Alfa Romeo da família RA 1000(que era um Daimler-Benz DB601 alemão feito sob licença), o caça era construído em metal e retinha muito do C.200, como as asas e trens de aterragem. Seus primeiros testes foram tão bons, que a Regia Aeronautica mandou que se iniciasse sua produção(tanto na Breda, quando na própria Macchi) o mais rapidamente possível e, em 1941, Udine sediava a primeira unidade equipada com o novo tipo: o 1º Stormo.

folgore

Dois aviões, dois padrões completamente diferentes de pintura: em primeiro plano, uma aeronave da 151ª Squadriglia e, ao fundo, um aparelho da 351ª Squadriglia

Em novembro desse ano, os C.202 podiam ser encontrados voando no Egeu, Norte da África, URSS e em Malta. De ótimo desempenho, seu calcanhar de Aquiles era o armamento muito fraco(2 metralhadoras Breda SAFAT 0.50cal na capota do motor, posteriormente reforçadas por mais duas nas asas).

Em combate, o C.202 invariavelmente tinha um ótimo desempenho de manobras, mas um problema crônico de abater os caças inimigos como os Hurricanes(que tinham 8 metralhadoras ou 4 canhões) e os Spitfires(4 metralhadoras e 2 canhões). Ataque a bombardeiros eram quase impossíveis com um armamento tão leve e, por isso, os italianos fizeram como os alemães, pondo gôndolas de metralhadoras adicionais sob as asas dos aparelhos. Isso não impediu, contudo, que ases italianos do 202 aparecessem e múltiplas variantes entrassem em produção, notadamente a 202AS tropicalizado, a 202CB caça-bombardeiro, a 202EC armada com canhões, a 202R de reconhecimento e até mesmo um drone(202AR4). Os C.202 foram usados por inúmeros atores da IIGM(Itália fascista, Itália Socialista, Itália Republicana e Alemanha Nazista) e, ainda que tenha tido sua produção encerrada antes de 1945, os aviões permaneceram em serviço até 1951!

A partir de ’43, um novo modelo entraria em operação, remotorizado e rearmado: o Macchi C.205 Veltro, com uma versão do DB605 e com duas metralhadoras Breda SAFAT complementadas por dois canhões MG151 de 20mm. Mas isso é história para outro post…

  • Apresentação

A caixa do kit é bem simples, com aberturas nas partes superior e inferior(particularmente não gostei muito, pois é mais fácil de perder algum conteúdo assim). É um modelo de prateleira, então a caixa tem uma orelha perfurada para ser exposta em araras de lojas.

No verso da caixa, apenas vemos outros modelos disponibilizados na mesma modalidade, como o AB-212, Tornado e afins. Uma informação a ser levada em conta é que a caixa apresenta informação de que o Macchi pode ser montado nas cores da Regia Aeronautica ou nas da Aeronautica Co-Beligerante(pró-Aliados, após o armstício de ’43).

  • Conteúdo da caixa

Conteúdo: tintas+cola e documentação extra na sacola da esquerda; um pincel, decalques, manual e as 3 árvores do kit à direita e 3 pincéis que vieram soltos na caixa.

Como se trata de um Model Set da Italeri, além do kit, há um conjunto de pincéis, uma garrafinha de cola de fusão e 4 pequenos frascos de tinta com as cores oficiais do modelo da própria marca italiana. As árvores do kit, manual e decalques vêm em uma sacola totalmente lacrada. Curiosamente, parte dos materiais para montagem vêm dentro da sacola principal com o kit(mas num bag exclusivo) e outros vêm soltos na caixa, o que pode propiciar sua perda, então, muito cuidado na compra desses conjuntos se for notado um dano físico às caixas dos mesmos!

Basicamente, o kit do Folgore resume-se a isso: duas árvores cinzas e uma de transparências.

Uma vez aberta a sacola principal, temos uma sacolinha com o canopy(separado em duas partes), duas árvores de peças, folha de decalques, tabela de conversão de cores e manual de instrução.

  • Qualidade do plástico

Presença de rebarbas

Há algumas, mas geralmente são pequenas e de fácil remoção. O maior problema nesse kit são os pinos de injeção, que aparecem em alguns lugares meio pentelhos, como o assoalho do cockpit, dentro da montagem do radiador (e em uma das suas grades) e do lado interno dos garfos que prendem as rodas dos trens de pouso principais. Uma micro-retífica com uma ponta diamantada esférica ajuda bastante, bem como limas.

Detalhamento

O interior não me pareceu tão chamativo nesse aspecto, mas a parte externa é irrepreensível nesse quesito. Comparado com os planos contidos no livro Macchi C.202 Folgore(Ace Publications), todas as linhas de painel estão corretas.

Peças de difícil remoção

À exceção do manche(2A), de um sensor que fica na barriga do aparelho(40B), dos atuadores das penas dos trens de pouso(35A) e de uma tomada de ar(22A), todo o restante é bem simples de remover da árvore. No caso das peças citadas, um bisturi(ou serra) e muita calma resolvem.

  • Instruções

Clareza e Simplicidade

Não há ambigüidades e nem confusão nos 6 passos de montagem.

Completude

Sim: há uma tabela de conversão de cores inclusa! Muito bom!

Apenas senti uma falta de explicar porque razão o modelista poderia optar por peças como as empenagens horizontais alternativas. A verdade é que elas representam aparelhos dos lotes inicial e final de produção(o que não é explicado no manual) e não se sabe, dos 3 aviões, quais deles eram dos lotes inicial ou final. Uma omissão imperdoável.

Correção

Não há nenhum passo incorreto nas instruções.

  • Originalidade

Como estamos trabalhando com o C.202 básico, o quesito raridade não se aplica tanto. Mas o Folgore, em si, é uma aeronave que não é lá muito reproduzida em kit: na 1/72 há os moldes da Frog/Air Lines/Tri-Ang/Matchbox, o da Super Model e o da Italeri/Tamiya. Em outras escalas, ele também pode ser encontrado: 1/144(F-Toys), 1/48(Tauro, Hasegawa/Eduard) e 1/32(Pacific Coast, Craftswork e 21st Century Toys). E isso conta em termos de originalidade.

  • Versatilidade

Presença de peças para representar outras variantes/versões

Em azul, os elevadores das versões iniciais de produção e, em amarelo, os das variantes finais.

O modelo vem com dois pares de empenagens horizontais, conforme citado anteriormente, então é possível representar o C.202 Série 4 dos lotes inicial e final de produção. Mais que isso, se a entrada de ar for refeita e um painel de acesso na corcova do avião for suprimido, é possível reproduzir um dos aparelhos das séries anteriores. Como o C.202 não mudou muito ao longo do tempo, se o radiador de óleo for feito em scratch e posto no “queixo”, é possível ter a versão C.202D.

Possibilidade de representar itens de outros países

A Alemanha e a Suíça usaram o C.202, mas o kit não traz decalques para nenhum desses aparelhos.

Possibilidade de representar vários modelos de um mesmo país

Os decalques permitem a reprodução de 3 aviões da Regia Aeronautica (dois que operaram no Mediterrêaneo e um na URSS). Infelizmente, não há opções para reproduzir os aparelhos da Itália após o Armstício, o que é uma pena(e contradiz a informação presente na caixa).

  • Construção

Presença de vãos

Sim, eles existem e estão distribuídos ao longo de todo o aparelho: entre as metades das fuselagens, entre as fuselagens e as asas, e ao redor do queixo do avião. Outro ponto a ser atentado é o encaixe do conjunto do radiador sob a fuselagem.

Massa para que te quero na área entre as raízes das asas e o cárter do motor.

Do outro lado é necessário abrir a entrada de ar para o filtro e sistema de admissão do motor. Muita massa é requerida na raiz da asa e perto do cárter do motor.

Incomum: é possível haver vãos nos bordos de fuga das asas também.

Note a parte superior da capota e o buraco existente entre ela e as metades da fuselagem.

Solidez dos encaixes

Cola cheirosa e as peças do cockpit em primeiro plano: manche (preso na pinça), o assoalho do habitáculo e assento do piloto logo ao lado, ainda na grade.

A solidez dos encaixes é boa, sem a percepção de o modelo ficar frágil ao manuseio. Vale um comentário extra: o kit vem com um frasco de cola, que dá e sobra para a montagem. Em vista da Contacta da Revell, a da Italeri tem uma fluidez maior, por outro lado, o cheiro é muito mais forte e isso deve ser levado em conta por quem monta em áreas fechadas. O referido frasco vem com um pincel para facilitar a aplicação do produto nas peças.

Folgore

Cockpit pintado em Interior Green AK

Assento e assoalho pintados e desgastados. Painel de instrumentos decalcado.

Desníveis

No geral os encaixes são bons, mas os dry-runs vão mostrar onde o bicho pegará.

Talvez a complexidade da montagem do C.202 da Italeri revele essa como a maior fonte de dores de cabeça para o modelista. Vãos serão comumente encontrados ao redor da barriga do aparelho, na estrutura que protege a perna da bequilha(32B+33B), além do queixo do avião(21B). O próprio alinhamento da frente do aparelho para receber o conjunto de hélice é passível de problemas pois, além das metades da fuselagem(9A+11A) e o queixo, ainda há o painel onde vão as duas SAFAT .50cal(12B). Muitos dry-runs e lixamentos terão de ser feitos nesse quarteto. O próprio encaixe ao redor do painel das armas mostra o quão ilusório esses Model Set/Gift Sets podem ser, pois eles atraem muitos modelistas verdes para pegar kits que apenas oferecem tinta e colas. Só que eles não são, necessariamente, uma montagem tranqüila.

Folgore montado, colado, lixado, alinhado e pronto para o primer!

  • Acabamento

Decalque

Uma nota negativa deve ser feita aos decalques da empenagem vertical: eles não são 100% opacos, e isso deixa a pintura da camuflagem aparecer sob a cruz branca, o que é um erro impossível de se notar antes da aplicação da figura e, ao mesmo tempo, meio complicado de corrigir adequadamente. No mais, os decalques restantes, bem como as instruções de aplicação não causaram quaisquer problemas, assentando facilmente na fuselagem e, com a ajuda de um solvente de decalques Revell, os contornos dos painéis e rebites ficaram bem evidentes.

Esquema de pintura

Os C.202 que operaram contra a URSS são facilmente identificados pelas marcas amarelas ao longo da fuselagem. Nesse caso, nota-se a predominância de verde, com manchas de marrom

Os aviões italianos têm uns esquemas de pintura que são semelhantes, em termos de dificuldades, aos do da Luftwaffe. Ao contrário das pinturas e esquemas de camuflagens alemãs, entretanto, há muito menos referências para pesquisa, bem como padronizações. Conversando com amigos que têm muito mais conhecimento de Regia Aeronautica, soube que as cores e procedimentos de pintura diferiam muito entre as fábricas que produziam as unidades(Breda, Macchi e SAI Ambrosini).

C.202 da 74ª Squadriglia, no Egito, ’42. Pintura predominante em amarelo com manchas pequenas de verde escuro

Dessa maneira, apenas com referências de fotos de época do avião escolhido é que podemos ter total certeza da acuidade da pintura do aparelho. E como não achei fotos de época, tive de assumir o esquemático de pintura sugerido pelo manual, fazendo as manchas em verde escuro com um pincel 00(simulando a pintura com trincha, em vez de pistola).

O avião escolhido para ser representado, foi o aparelho com serial M.M.9036(Série VII), alocado à 85ª Squadriglia, 18° Gruppo, 3° Stormo C.T. que estava sediado em Gennaio, 1943(Tunísia), voado pelo Maresciallo Luigi Gorrini. Um outro detalhe a ser posto aqui é que não há, entre os decalques, a matrícula do aparelho(constante nos aviões da Regia).

O kit veio com 4 cores para a pintura do avião: Griggio Azurro Chiaro 1, Verde Scuro Mimetico 39, Giallo Mimetico 16 e branco. As tintas são acrílicas e, tirando o cinza e o branco, foram fáceis de aplicar(não tanto como AK ou Hataka), com boa cobertura e sem mistérios.

Essas duas cores que falei(cinza e branco) tiveram lá suas peculiaridades: o branco tinha pouquíssima resistência ao mascaramento e eu tive que resolver com uma tinta melhor. Creiam ou não, o branco Acrilex salvou a pátria. Já o cinza estava muito pastoso(ao contrário das demais tintas, que eram apenas um pouco mais grossas que o famoso “ponto de leite”. Esse tom demandou mais paciência para a diluição, mas assim que o ponto foi alcançado, não houve problemas em aplicá-lo.

A pintura começou com o cinza pastoso que, uma vez aplicado, foi mascarado. A faixa branca foi pintada ao redor da fuselagem e isolada, o que nos leva para o passo subsequente…

Folgore

…a pintura em Giallo Mimetico do avião.

Seguindo algumas fotos, a parte interna das portas dos trens de pouso e os porões de roda foram pintados em Seafoam Green Hataka

Agora é mão firme, paciência e um pincel fino para aplicar o Verde Scuro, seguindo o padrão de anéis.

Como informação extra, testei nos trens o Acrylic Silver da Hataka(HTK-A003), aplicado direto sobre o primer cinza nas pernas, garfos, rodas e atuadores. Gostei dos resultados!

Concluída a pintura, uma demão de verniz brilhante(AK192) preparatório para os decalques e wash(paneliners AK2073 na parte superior e AK2072 na inferior).

O Weathering prossegue com um chipping à base de True Metal Silver(AK458) aplicado com pincel fino(000) e esponja em locais passíveis de muito atrito: bordas de painéis de manutenção, tampas de reservatórios, parte superior das raízes das asas e bordos de ataque das asas, empenagens e pás da hélice.

Na parte inferior, os trens sofreram um envelhecimento misto com o set Landing Gear Weathering(AK2030) e pigmentos Light Dust(AK040)e European Earth(AK042).

Os escapamentos foram envelhecidos com o conjunto Exhaust Stains Weathering(AK2037). E a fuligem dos disparos das SAFATs foi feito com o pigmento Smoke(AK2038).

 

  • Conclusão

Nota: 7,6

O que podemos tirar dessa montagem? Foi prazerosa, ainda que um tanto desafiadora(especialmente na pintura). Não é um kit recomendado para iniciantes pois, além de a pintura não ser das mais simples, a montagem tem alguns pontos em que são exigidos trabalhos de preparação meio complicados. O maior desafio disparado, contudo, é o de achar referências adequadas para o aparelho que se irá representar.

Com a variedade de pinturas disponíveis, dificilmente eu não montarei mais Folgores e Veltros daqui pra frente(até porque sobrou bastante tinta). Mas Italeri, per l’amore di Dio, complete a folha de decalques e, se possível, simplifique a montagem da seção frontal do avião!

DB601 em dose dupla: C.202(esq.) e Me-109E4(dir.)

Referências

  • C.202 “Folgore” 85-2 CC-13, visto em https://www.aviationgraphic.com/aviation-lithographs/557-c202-folgore-85-2-cc-13.html
  • Macchi MC.202 Folgore visto em http://wp.scn.ru/en/ww2/f/920
  • Seria Pod Lupa Nº7 – Macchi C.202 Folgore, Ace Publications, ISBN 8386153555

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About the Author

Engenheiro de computação formado na UFES e com diversos cursos na área de redes e tráfego de dados, absolutamente louco por carros, aviões, trens, tanques, caminhões, história e estratégia. É o braço técnico da UdK.



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