Kits

Published on julho 21st, 2014 | by ES1

1

Uma goiaba na mão. E agora? (Parte 1)

Seguindo nossos últimos posts, vocês viram as arapucas que os modelistas estão sujeitos a cair por causa de uma  arte bonitinha na caixa. Não viu? Clique aqui antes de continuar, então.

Na  primeira postagem, falei sobre como um modelista pode se deixar levar e arrematar um kit, digamos, especial: mal-moldado, mal-planejado, muito antigo…

…ou tudo isso junto!

Agora, vamos assumir que você tenha se ferrado deixado levar. O que fazer? Devolver o kit? Jogar no lixo? Encarar?

Vamos seguir a abordagem Chuck Norris nesses casos: encarar.

“Vai amarelar, covarde?”

Afinal de contas, quem está na chuva é pra se molhar! Encarar um kit assim te dá uma certa liberdade, pois você pode testar técnicas e materiais que você não arriscaria num kit melhor…

Há 3 formas de se completar um kit ruim:

A-montando-o direto da caixa(DDC) e usando-o como plataforma de testes;

B-cruzá-lo(kitbashing) com outro modelo para melhorá-lo; e

C-melhorá-lo na marra.

Eu tive o “prazer” de topar com o Revell 04148 que atende por Mustang P-51D “Cookie”. Conforme dito antes, é um modelo de 1963 que não teve atualização nenhuma desde então nas peças. Com o tempo, os moldes começaram a se desgastar e as peças passaram a sair com erros, além de a própria engenharia do kit não ser das mais modernas. Como resolvi encará-lo, parti direto para a alternativa “A”. Eu estava louco para testar tinta cromada, verniz automotivo diluído com thinner, o uso de tinta de lata de spray em aerógrafo e máscara com fita durex de enfeite. Resolvi usar esse pequeno avião como bancada pra tudo isso. Vai que transformo o patinho feio, num patinho aceitável?

Cisne é querer demais.

O começo é bem comum: avaliar a presença de todas as peças nas grades, as imperfeições e planejar a montagem. Feito isso, todas as grades partiram pro banho de água com detergente para remover o agente desmoldante. Concluída essa fase, as instruções foram detalhadamente estudadas e fotos de referência foram caçadas na internet. Com elas, descobri que o interior do avião não tem absolutamente nada de semelhante com o do kit. Nem esquentei a cabeça, pois o que importava pra mim era chegar ao final da montagem para os testes na fase de pintura.

Inicialmente fiz meu sistema moderníssimo de transposição de tinta spray->aerógrafo. Como a tinta do aerossol já vem diluída na proporção exata, só precisei agitar a lata bem e aplicar no copo do aerógrafo.

 

Em seguida, uma leve balançada no aerógrafo ou umas batidinhas para o gás sair e é só passar no modelo. Com isso, a economia de base (Colorgin 53001) e o controle na aplicação do mesmo ganharam um novo(e elevado) patamar. Certamente ele vai render 2 ou até 4 vezes mais!

Com o primer seco(ele seca quase instantaneamente ao toque) já é possível manusear as grades e passá-lo nas peças pequenas(escapamento, trens de pouso, portas, antenas, etc…). Não, ainda não é hora de passá-lo nas peças da fuselagem e asas.

Com o interior coberto pela base já seca, é hora da pintura(no caso, um tom de interior green e preto). Alguns detalhes foram acesos com a técnica de pincel seco e a única intervenção maior nesse caso, foi pôr um manche no assoalho(mais que isso, o kit não merece…). Tudo devidamente seco e selado com verniz fosco, hora de partir para a parte mais delicada e trabalhosa: fechar as metades, unir as asas, elevadores e carlinga.

Antes de separar as grandes peças da árvore, um minucioso e longo processo de remoção das rebarbas teve lugar. Com estilete ou lixa, cada rebarba era removida até que nenhuma mais fosse visível. Sempre com o máximo cuidado para não remover os detalhes, nem cortar ou quebrar o frágil plástico. Na hora de raspar as rebarbas com estilete, busque sempre esfregar a lâmina no sentido contrário ao do fio.

Com as grandes peças limpas e removidas do sprue, é vital fazer um teste de montagem para avaliar possíveis falhas de encaixe e empenos. Felizmente, apesar da idade, não havia empenos significativos. Em compensação, falhas nas linhas de junção eram inúmeras e enormes. Para piorar, vários pontos de afundamento e de injeção em locais de difícil remoção e/ou visíveis.

A junção asa-fuselagem, empenagem horizontal, os tanques sub-alares e cockpit  foram as áreas mais gravemente afetadas pelas falhas de moldagem e requereriam muita massa e lixa. Para facilitar pro meu lado, nos tanques e no leme eu usei massa de correção automotiva aplicada com espátula, enquanto no resto eu usei o bom e velho corretivo escolar. Sim! Corretivo! Só aplicar com o pincel que vem na tampa, aguardar a secagem e dar sucessivas passadas até cobrir a área desejada e nivelar com a superfície do modelo(farei um tutorial disso mais pra frente).

Corrigindo as falhas nos encaixes…

Correções e mais correções…

Após 4 dias de preparação da superfície (massa, corretivo e lixa), o avião estava pronto para a pintura.

4 dias de massa e lixa depois…

Inicialmente, eu não poderia colocar a carlinga no lugar, pois eu precisava mascarar cockpit e antes de passar o primer e pintá-lo, juntamente com os porões de roda. Feito isso, a peça foi olhada contra a luz em busca de imperfeições. Caso elas sejam descobertas, massa, lixa, primer e verificação. Esse ciclo tomou muito tempo (especialmente se levarmos em conta o diminuto tamanho do caça). Com o avião totalmente corrigido(ou em níveis aceitáveis), foi aplicado preto nele e na carlinga.

Primeiramente, mascarei o canopy. Não quis usar nem o durex convencional e nem fita crepe: o primeiro tem um adesivo forte demais e o segundo é muito grosso, o que causa acúmulo de tinta nas bordas. Fora que ambos costumam deixar resíduos. Como uma possível solução, passei por uma papelaria e vi aquelas fitas adesivas coloridas. Baratas, finas e com menos adesivo que o durex convencional, pareciam promissoras. Como não havia nada a perder, comprei e essa era a chance de usá-las.

Máscaras para delimitar as famosas “faixas de invasão”.

Primeiramente, o avião recebe a tinta preta para  reforçar o efeito da tinta metálica que cobrirá o modelo. Em seguida foi feito o mascaramento das faixas e o branco foi aplicado no meio, nariz e leme. Com a mesma função do preto, o branco deverá acender o verde do nariz e o amarelo na cauda.

Nesse caso, não importa se o branco se espalhar um pouco sobre a superfície negra.

Muita delicadeza e carinho na hora de unir o canopy com o resto do avião…

Nariz pintado com verde esmeralda e leme com amarelo ouro. Hora de colar a carlinga!

Para transparências(faróis, pára-brisas, janelas, carlingas, etc…) a cola branca e as colas para bijuterias são as melhores alternativas. O problema é que elas demoram para secar, de modo que é necessário manter as peças unidas (elas tinham um leve empeno, necessária alguma pressão) até a secagem. Qual não foi minha surpresa quando descobri que também  havia um degrau entre o pára-brisas e o capô?

Bom, nessa altura do campeonato, surpresa não foi nenhuma mesmo. Mas fiquei bravo de qualquer forma!

O jeito foi apelar para a boa e velha epóxi!

Conforme visto, o mascaramento com a fita foi muito melhor do que o imaginado! Se o primeiro teste foi 100% exitoso, vamos ver o verniz automotivo…

-Qual a dificuldade?

Ahn, eu nunca acertei a mão.

O verniz automotivo é bi-componente(verniz+catalisador/endurecedor). As instruções dizem para misturá-lo na proporção de 5 partes de verniz para 1 de endurecedor. Só que não falam que tem de diluir isso com thinner e eu vinha errando nisso há tempos, o que resultava em pinturas com aspecto arenoso e/ou de casca de laranja. Após lixadas, polidas e enceradas, não tinham brilho nenhum!

Então o problema é só diluir e aplicar? Não.

Meu receio é o thinner. Ele é conhecido por ser um ótimo removedor de tintas e, como se não bastasse, ele costuma atacar o plástico, com uma voracidade impressionante. Seria uma aposta alta e arriscada, se eu não contasse com a ajuda de meus amigos que mexem com carros há anos. Mas qual a necessidade e a vantagem de usar esse verniz de aplicação tão mais complexa?

Mesmo com o uso de verniz acrílico brilhante, eu não acredito que seja possível conseguir um acabamento com aspecto vítreo. Se der certo, o acrílico vai ser usado para posicionar/selar decalques e intermear camadas de pintura/efeito, ficando o verniz automotivo para a proteção do modelo. Além disso, esse verniz aguenta umidade, maresia e raios UV, preservando muito mais a miniatura. Sem contar que a limpeza fica mais facilitada, já que sujeiras e impurezas ficarão bem isoladas da pintura.

Em resumo, fiz a mistura 5:1(verniz/catalisador) e misturei a solução resultante com thinner, diluindo-a, numa proporção de 1:1. Aplicando no aerógrafo a uns 10psi, inicialmente o verniz foi jogado bem de leve, apenas “empoeirando” as peças. Cada demão deve ser separada da próxima por um intervalo de 15 minutos e assim foi feito.

As demãos posteriores foram dadas com pressão de 15 a 20 psi, para laquear o caça.

Mascarado e envernizado para o cromado: o verniz bi-componente se comportou bem e o thinner não atacou o plástico

Fundilhos…

O efeito foi bem melhor do que o esperado. No caso específico de kits em alto relevo, o verniz deveria ser ainda mais diluído para gerar um efeito melhor. No caso de kits em baixo relevo, seria possível lixar as superfícies e re-envernizá-las, para melhor resultado.

Anteriormente, eu disse que os decalques eram finos demais, lembram? Vejam as implicações disso:

Foto: Revell AG

Logo, não posso simplesmente fazer uma máscara simples, na faixa de invasão. Terei de  pintar onde irá o cocar da USAAF também, por isso bolei a máscara vista na penúltima foto.

Agora é testar a tinta cromada. Eu usarei a Chromenox, que pode ser diluída(1:1, com thinner) para render mais no aerógrafo ou mesmo ser aplicada pura.

Nesse caso, a pintura tem de ser feita com muita paciência e disciplina: uma demão bem fininha e fraca(uns 10 psi), seguida de uma passada de cotonete ou um pano limpo para “desempoeirar” a superfície antes da próxima demão. Isso é necessário devido às partículas metálicas que estão presentes na composição do pigmento e que devem ser removidas a fim de que a superfície fique lisa antes de receber a próxima camada de tinta. Como a demão anterior deve ser separada da posterior por um intervalo de 2 a 5 minutos, a cromação acaba sendo um processo razoavelmente rápido. Depois é só tirar as máscaras.

Resultado

O efeito ficou mais pra alumínio, devido às imperfeições na superfície que não puderam ser corrigidas por causa do relevo alto. Vamos ver se o verniz vai dar o destaque devido no final…

Aqui, devo abrir um parêntese: depois de pintado, o filho da mãe fica bonitinho e a gente até acaba simpatizando com ele…

…mas não o suficiente para esquecer os perrengues da montagem da goiaba!

Prosseguindo, os decalques foram postos (o que não rendeu nenhum problema), o kit sofreu retoques e foi selado com mais verniz automotivo. Dessa vez, tudo foi polido (massa de polir nº2) e encerado(cera de alto-brilho Pro-Auto). As faixas e a cobertura anti-ofuscamento no capô foram cobertas com verniz fosco.

Aqui vale um toque: evite pintar sobre áreas laqueadas! No caso da capa anti-ofuscamento, a área foi delimitada com fita e lixada com uma nº600. Quando não havia mais brilho é que o olive drab(esmalte da Humbrol) foi aplicado com pincel chato, diluído com Solvente Eco, na proporção de 4:3(tinta/solvente).

Depois, foi só adicionar a antena, que é um fio de cabelo feminino, colado na carlinga com cola branca e na empenagem vertical com bonder. Excesso removido com estilete e tudo pintado, era só pintar as hélices, decalcá-las e selá-las.

Então, após uma semana de trabalho quase ininterrupto, eis o resultado:

goiaba

goiaba

Conclusões

Aprendi a não detonar um kit com verniz automotivo e a aplicar a Chromenox gradativamente, tendo bons resultados.

Valeu eu ter arrematado um kit tão fraco para fazer esses testes então?

Eu diria que não, uma vez que todos esses testes podiam ser feitos sobre qualquer superfície plástica, como uma garrafa PET usada, resto de cano, e por aí vai. E, venhamos e convenhamos, o custo-benefício de uma garrafa pet é muito maior que o de um kit de 1963 de 70 reais se o negócio for só para ter uma bancada de testes de pintura. Ainda mais se a dita garrafa tiver uma Soda trincando de gelada naquele dia quente…

Se eu recomendo esse kit? Definitivamente não. Não há necessidade de comprar um kit desse nível, com opções tão mais detalhadas e mais fáceis de montar. Ele nem é o Mustang mais barato da escala!!!

Um molde com engenharia ultrapassada e que tira o tesão do modelista na montagem não pode ser recomendado nem para testes, ainda mais para alguém sem experiência…

Na minha prateleira de kits, ainda há 3 goiabas na fila:

  • Stearman Kaydet (Revell 1/72)
  • Bristol Belvedere (Airfix 1/72)
  • Macchi MC200 Saetta (Revell 1/72)

-Mas Frederico, se você fala tão mal das goiabas, por que ainda tem tantas para montar?

Deve ser masoquismo, só pode…


Gostou da leitura? Dê uma passada na Loja da Usina dos Kits, confira dezenas de produtos para a prática do plastimodelismo e adquira já o seu!


Tags: , , ,


About the Author

Engenheiro de computação formado na UFES e com diversos cursos na área de redes e tráfego de dados, absolutamente louco por carros, aviões, trens, tanques, caminhões, história e estratégia. É o braço técnico da UdK.



Back to Top ↑