Técnicas

Published on março 2nd, 2015 | by ES1

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Decalques caseiros: como criar um modelo único com o Corel 11(Parte 1)

Não é de hoje que os plastimodelistas procuram criar representações de modelos mais exóticos e únicos a partir de veículos comuns. É claro que cada modelista gosta de reproduzir veículos diferentes, sejam eles com alguma ligação com suas terras-natais ou para fazer versões pouco conhecidas. Por isso, faremos um pequeno tutorial para mostrar que customizar decalques não é um bicho de sete cabeças.

Por que não comprar uma folha de decalque pronta? Simples: nem todos os fabricantes de decalques aftermarket produzirão os decalques que toda a comunidade modelística possa vir a desejar(acriatividade sempre supera a capacidade produtiva). Dessa maneira, é muito mais simples nós mesmos criarmos um mecanismo de impressão de decalques e imagens em geral: enquanto os decalques irão diretamente nos modelos, imagens personalizadas podem enriquecer um diorama ou criar máscaras de pintura em alguns casos. Vamos então pelo básico requerido!

1-Perfil e fotos de referência do modelo que se deseja representar. Informações de algumas medidas do modelo real para ajudar redimensionamento de imagens também são necessárias.

2-Desenho de 3 vistas do modelo que se deseja reproduzir. Seja um carro, caminhão, navio ou aeronave, é muito importante ter um esquemático(na pior das hipóteses, arranje umas fotos) do veículo que você quer reproduzir com a visão lateral, frontal e superior.

3-Fontes apropriadas: sempre haverá inúmeros detalhes a serem feitos, como stencils, logos, lemas patrióticos e afins. Para tal, é importante ter fontes adequadas para a correta reprodução do modelo. Há vários sites que disponibilizam fontes para download gratuitamente como o Netfontes, Dafont, Fontesgrátis, 1001freefont, FontSquirrel e Fontfabric (só para citar alguns). Além das fontes, é possível achar logomarcas oficiais de empresas(muito úteis para veículos civis ou de competição) em sites como o da Seeklogo.

4-Um programa de edição gráfica como o Gimp, Draw Plus SE, Inkscape, Corel Draw ou Sketchbook Pro.

5-Papel de decalque(seja ele para impressora à jato de tinta ou laser). As opções vão desde as estrangeiras Micromark, Decalpaper eCrafty Computer Paper, à nacional Sirap.

6-Impressora com resolução de 1200dpi ou mais e que possa lidar com papéis de gramatura maior que a de um papel A4 comum, pois é esse o caso de papéis para decalque.

De posse de todos esses materiais, vamos começar? Eu tenho o Corel 11 que adquiri há um tempo e, embora não tenha todas as ferramentas inovadoras das últimas variantes, serve muito bem para fazer a maioria esmagadora dos decalques que alguém poderá precisar. Vamos agora avaliar um exemplo prático e as ferramentas do Corel(todos os demais programas devem ter ferramentas semelhantes, mudando apenas a interface e o tipo de arquivos de salvamento). A nossa referência é um C-47 “FAB 2009” e pretendo fazer os decalques para uma versão 1/144.

Estênceis

Com o Corel Draw 11 já aberto, temos a interface que segue:

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Em seguida, selecione New Graphic e a área de trabalho aparecerá:

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Às vezes, o Corel assume o papel padrão como sendo A4(21cm x 29,7cm), mas se quiser alterar o tamanho, clique em Layout -> Page Setup. Agora você pode customizar as dimensões a seu bel prazer. Clique em Ok para as alterações serem aplicadas ou em Cancel para desfazer tudo.

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Com o papel configurado, começaremos importando um desenho de 3 vistas do nosso modelo. Para esse exemplo, usarei um Douglas C-47 Skytrain. A importação é feita em File -> Import ou através do atalho de teclado Ctrl + I. Na caixa de diálogo seguinte, você deve navegar através das subpastas do seu PC até achar a imagem salva e abrí-la. Uma alternativa é copiar diretamente do seu browser(Safari, Opera, Chrome, Internet Explorer, Firefox, etc…) e colar na área de trabalho do Corel. Qualquer caminho que siga, a imagem será carregada conforme segue:

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O próximo passo antes de iniciarmos a confecção dos estênceis é dimensionar corretamente a figura para que o tamanho do modelo com que trabalharei no Corel seja o mesmo do modelo em escala real. Como estamos com um hipotético Douglas C-47 1/144 então podemos seguir por dois caminhos: medição direta ou cálculo. Na medição direta, você usa uma réguam trena, fitamétrica ou paquímetro para pegar uma dimensão qualquer do modelo e a reproduzir no programa. Por outro lado, se você não tiver ferramentas de medida e/ou o kit à mão, basta procurar as medidas do avião real n’alguma publicação, ou na web.

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O C-47 mede 19m x 29m(comprimento x envergadura) então podemos partir daí: se uma aeronave real(1/1) tem 19m, uma aeronave 144 vezes menor(1/144) medirá 19/144=0,13194m ou 13,19cm. Usando a ferramenta retângulo, presente na barra lateral(ou usando o atalho F6), crie um retângulo qualquer e depois mude o comprimento dele para os 13,19cm calculados, entrando com o valor na área indicada.

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Agora basta colocar o retângulo sobreposto ao perfil do avião e redimensionar este último até que as extremidades coincidam. Feito isso, finalmente poderemos começar a fazer os decalques propriamente ditos. Todos os passos até esse ponto são os mesmos sempre que se quiser fazer decalques, então serão omitidos daqui pra frente.

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Eis fotos que serão nossas referências:

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Para começar, o nossos computadores não vêm com a fonte correta para representar as inscrições da aeronave original: então vamos pesquisar na web por uma fonte que bata com o que desejamos obter. Uma vez achada a fonte e instalada no computador, o Corel reconhece-a automaticamente, não necessitando reiniciar o programa. Para iniciar a digitação, escolha a ferramenta de texto(F8) na barra lateral e percorra a lista de fontes até que encontre a que mais se aproximar(ou bater exatamente) com a referência.

Após digitar os textos desejados, a próxima fase consiste em dimensioná-los baseando-se em perfis ou fotos: clique em cada texto uma vez e ele será destacado e cercado por 8 quadrados automaticamente, indicando que estamos no modo de redimensionamento(clicando mais uma vez, o texto passa a ser rodeado com setas, mostrando ser esse o modo de rotação); se clicarmos num dos quadrados das “quinas” e o arrastar com o mouse, voilá: texto redimensionado. Se não gostar, aperte Ctrl+Z para desfazer . Como nem sempre os perfis com as marcações estarão disponíveis, basta fazer uma avaliação de fotos com o olhômetro e você já terá resultados muito bons:

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Entretanto, algumas imagens ainda faltam, como o hífen em “C 47”, o cedilha em “Forca” e o agudo em “Aerea”. Isso ocorre frequentemente, pois as fontes estrangeiras não costumam manter a acentuação e sinais típicos de idiomas latinos como é o caso do português e do espanhol, por exemplo. Para contornar essas deficiências, podemos lançar mão de ferramentas simples, conforme o retângulo já mencionado e as ferramentas de redimensionamento/rotação, só que aí entramos noutro problema: uma pesquisa nos mostra que a acentuação tinha grafias diferentes entre algumas aeronaves que podem ser provenientes tanto de mudanças de padrão como de restauração. Notem essas duas aeronaves C-47 que estão estacionadas no Musal do Rio de Janeiro:

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Mais uma vez, pesquisa e avaliação se fazem necessários. Após ver algumas fotos dos Skytrain da FAB, vi que é muito mais provável que a pintura do “2009” se aproxime mais da do “2015” em vez da do “2018” que pode ter sido mudada na restauração. Vamos começar então pelo hífen, selecionando a ferramenta retângulo para fazer “C-47”:

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Em vez de começar pelo cedilha ou o agudo, comecei pelo hífen por um bom motivo: os dois demais sinais são apenas cópias rotacionadas, bastando selecioná, copiá-lo e o colar. Tenha em mente que sempre que você copiar e colar um item no Corel ele ficará sobreposto ao original e não onde você eventualmente clicar ou puser o mouse.

Clicando-se duas vezes em qualquer um dos hifens copiados, eles entram no modo de rotação; ao clicarmos nos indicadores laterais(não dos das quinas), o retângulo começará a ficar distorcido como um paralelogramo, exatamente conforme nós queremos.

Basta redimensionar adequadamente, girar o elemento final(usando os indicadores de rotação das quinas dessa vez) e colocá-lo na posição adequada. Como o cedilha e o agudo são graficamente iguais, basta copiar e colar:

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Então é isso? Terminou tudo? Não tão rápido. Nós modelistas gostamos de detalhamento e ainda faltam muitas imagens e gráficos, como a marcação das hélices na fuselagem, a saída de emergência, a bandeira do Brasil e o cocar da FAB. Vamos por partes.

Marcações

No caso de logomarcas, temos só 3: o cocar da FAB, a bandeira do Brasil e o escudo da unidade podem ser encontrados numa busca de imagens na internet(o brasão do 6º Esquadrão de Transporte Aéreo deu um pouco mais de trabalho, mas também foi identificado e salvo). De posse de todas essas figuras, resta-nos posicionar e dimensionar cada um deles apropriadamente. O resultado está cada vez mais interessante, conforme pode ser visto a seguir.

Antes de concluir a parte lateral, falta um último detalhe: as faixas na fuselagem que demarcam por onde as hélices passam:

douglas_c47

Primeiramente vamos criar o “Hélice”. Usando a ferramenta de texto, separamos cada letra através do uso da tecla Enter. Depois, deve-se centralizar o texto.

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Para a seta, usamos a ferramenta Arrow Shapes, que é bem simples de se usar: basta clicar e arrastar até chegar às dimensões queridas.

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Feito isso, podemos estender as faixas vermelhas. Para finalizar os decalques dessa aeronave, restam as marcações nas asas. Recorrendo a fotos e referências, temos apenas que importar o brasão da FAB correspondente, dimensioná-lo e fazer cópias. Abaixo das aeronaves havia uma inscrição FAB – x ETA, onde o x refere-se ao número do Esquadrão de Transporte Aéreo ao qual aquela aeronave estava alocada(nesse caso, o 6º). Não tenho uma fonte que bata diretamente com minhas referências, então usarei as ferramentas de polilinha e o preenchimento com cores para consertar e adequar o meu texto, ao texto de referência:

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Mas note que ainda falta o indicativo de numeral ordinal(“º”). Dessa vez, terá de ser na unha mesmo com as ferramentas retângulo e elipse. A ferramenta elipse(F7) é bem simples de se usar: basta clicar onde se deseja e arrastar em qualquer direção. Num primeiro momento, isso não terá cara alguma de círculo. Para corrigir e dar um formato regular à figura, basta irmos à barra de ferramentas superior e ajustar as dimensões de comprimento e largura, deixando-as com a mesma medida nos campos Object’s Size. Pra evitar que uma figura seja distorcida sem querer, note que há um pequeno cadeado ao lado das medidas. Clique nele, e a figura será travada: ela pode ser aumentada ou comprimida, mas não pode ser achatada, ou estendida(agora ela fica com as proporções travadas). Para destravar, clique novamente no cadeado.

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Para criar o círculo a partir da elipse, deixa as medidas de altura e largura iguais, dê enter e clique no cadeado para travar a proporção entre essas medidas: agora basta redimensionar adequadamente o círculo e voilá.

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Preparando para a impressão

Bom, agora que temos todos os decalques prontos, precisamos de uma última coisa: organizá-los para a impressão e criar um mapa com a localização deles. Felizmente o Corel tem uma ferramenta para separar entre várias páginas o nosso projeto. Clicando no “+“, criaremos a segunda página na qual faremos a organização dos decalques para a impressão. Uma vez criada a nova página, vamos copiar todo o conteúdo da primeira para a segunda e vamos eliminar os desenhos de 3 vistas. Teremos algo assim:

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Agora, um ponto MUITO importante. Algumas folhas de decalque vêm com fundo transparente e outras não justamente para emular letreiros e figuras “sólidas”(cujo fundo não apareça). Se nosso avião fosse totalmente monocromático, muito certamente não precisaríamos usar os decalques de fundo branco, mas nesse caso a aeronave apresenta várias cores-base(branco, preto e alumínio), algumas figuras que são sólidas e outras não, logo temos duas alternativas: pintar onde elas ficarão com uma base branca na forma dessas figuras para poder imprimir tudo em uma folha transparente, ou criar uma nova página em nosso arquivo, separando os decalques de fundo branco daqueles que serão impressos com fundo transparente. Qual a melhor opção? Fica à critério do modelista. Criarei uma outra página só para deixar tudo mais didático e organizado.

Com tudo separado, vamos organizar adequadamente as imagens para economizar ao máximo a folha de impressão(algo que não seria tão necessário em alguns modelos 1/48, 1/32 e 1/24, mas que é muito útil em escalas de 1/72 para baixo) e vamos renomear as páginas para não nos perdermos: para tanto, dê um clique direito em cima da aba dom o nome da página; na janela que abrir, vá em “Rename”, ponha o nome desejado e dê “Enter”.

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Logo em seguida, vamos numerar os decalques para não nos perdermos na hora de colocá-los no modelo (ainda que soe bobo numa aeronave com pouquíssimos decalques como essa, mas é uma boa prática que adquiri e me salvou quando fiz um MiG-29UB da Força Aérea da Hungria que possuía mais de 60 decalques).

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Bom, nada mais nos impede de partir para a próxima fase.

Testes, impressão e isolamento

Pronto para imprimir, basta ir em File -> Print, clicar no ícone da impressora(que fica sobre o Edit) ou usar o famoso Ctrl+P no teclado, inicialmente para fazer um teste das dimensões de cada um dos decalques. Imprima a folha de decalques num papel comum e verifique se tudo está à contento. Se houver um erro, corrija-o e reimprima, fazendo novas checagens. Esse ciclo de testes deve ser repetido até que se chegue a um resultado que agrade. Voltando ao Corel, hora de imprimir os decalques para valer: entre na tela de impressão e selecione qual página será impressa(lembre-se de abastecer a bandeja com a folha de decalque correspondente ao que você for imprimir). Antes de dar Ok, certifique-se nas opções avançadas de impressora que a sua resolução esteja acima de 1200dpi(quanto maior, melhor) e pode iniciar a impressão.

Com as duas folhas(fundo branco e fundo transparente) impressas, temos que tomar uma certa atenção agora: se sua impressora for de jato de tinta, dê uma demão de verniz  para selar os decalques antes da aplicá-los no modelo para evitar que a água remova a tinta da impressora(pois esses pimentos tendem a ser também diluídos em água). Se você tiver uma impressora laser em casa, pode imprimir(esperar secar), recortar e aplicar sem maiores dores de cabeça uma vez que o processo de gravação com o toner não é afetado pela água.

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Usando essa metodologia, é possível customizar não só plastimodelos, mas die-casts, aplicar em artesanato ou no que sua criatividade mandar. Eu mesmo tenho vários modelos que foram personalizados para serem únicos:

MiG-29UB da Hungria 1/72

Impala Caterpillar Nascar Team e Falcon The Bottle-O 1/64

Panoz Esperante GTR-1 24h de Le Mans 1/64

Boeing B-17F Fortress IIa RAF Bomber Command 1/200

AAV 7A1 com UGWS do CFN 1/72

Já tem seus modelos personalizados? Mande pra nós e o postaremos no Instagram. Tem dúvidas, críticas ou sugestões? A caixa de comentários é de vocês!

Em breve lançaremos nosso próximo post sobre decalques contendo a criação de figuras, formas e textos complexos, então fique ligado!

PS: esse post teve a ajuda inestimável do Sr.Rudney Cunha, cujo material sobre a FAB se demonstrou imprescindível. Para maiores informações sobre a história da nossa Força Aérea, clique aqui.


Gostou da leitura? Dê uma passada na Loja da Usina dos Kits, confira dezenas de produtos para a prática do plastimodelismo e adquira já o seu!


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About the Author

Engenheiro de computação formado na UFES e com diversos cursos na área de redes e tráfego de dados, absolutamente louco por carros, aviões, trens, tanques, caminhões, história e estratégia. É o braço técnico da UdK.



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