Técnicas pre-shading

Published on agosto 27th, 2015 | by Bruno Cascapera

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O mito do pre-shading!

O pre-Shading: o que é, quando deve e quando não deve ser usado

Certa vez, dando aula de plastimodelismo, ensinava o aluno a pintar seu avião, era a sua primeira pintura com aerógrafo, primeira pintura usando duco, estava ficando bem bonito, mas alguma coisa o incomodava… quando a pintura estava quase pronta, estávamos quase prontos para começar a fazer os efeitos, ele não se conteve:

– Quando vamos fazer o tal de pré-shading?

– Não vamos fazer pré-shading. – Respondi.

– Não faz parte do meu curso. Meu curso ensina os modelistas a fazer da forma antiga, tradicional, uma série de feitos e filtros para tratarmos as cores, mas sem pré-shading.

O aluno me fez uma carinha de cachorro sem dono:

– Pensei que ia aprender… vejo todo mundo fazendo…

A verdade é que ele nem sabia direito o que era, nem pra que servia, mas queria fazer. Com o andamento da montagem eu justifiquei o não uso da técnica e fui muito além nas técnicas de tratamento de cores, ele não só entendeu, como se manteve no hobby sem a prática do pré-shading, e hoje é o que eu considero um modelista bem sucedido, com trabalhos solos premiados, pinturas lindíssimas e tudo mais.

pre-shading

Resultado de pintura sem a técnica de pré-shading.

Pré-shading é a técnica do momento

É só abrir um fórum qualquer de modelismo e logo você acha alguém riscando o modelo de preto antes da pintura. Muita gente faz isso mecanicamente, sem entender muito bem o porquê, sem nunca ter ouvido falar no termo “ancoragem de cores”, e também sem muito alternativa para aquilo… parece até uma epidemia, vê-se a técnica aplicada em tudo, já vi até em figuras…

Não, não sou contra o pré-shading. Não acho que você que pratica essa técnica esteja errado, e já ensinei algumas vezes para algumas pessoas que me pediram e me pagaram para ensinar o pré-shading para eles, mas sempre que me é permitido, eu ofereço – Eu te ensino, mas eu conheço uma técnica melhor, quer aprender?

Essa minha má vontade com a técnica é derivada da má vontade que um dos meus mestres tinha com ela. Vou contar minha experiência… Numa época pré-facebook ainda, quando eu engatinhava no mundo das técnicas avançadas do plasti, me deparei pela primeira vez, em uma revista europeia, um passo a passo incrível de uma técnica de pré-shading. Confesso que na hora achei aquilo um máximo.

Na mesma época, eu estava com dificuldade em aplicar tudo aquilo que estava aprendendo de shading, filtros, ponto de fuga, ancoragens de cores, filtros no aerógrafo, filtros no dry-brush, uso de clears, uso de mediuns, escala de cores, controle de aerógrafo e etc… Quando vi aqueles tracinhos pretos delicados sobre uma superfície pintada de primer clarinho, por um momento eu achei que todos os meus problemas estavam resolvidos…

Corri todo animado, com a revista debaixo do braço, para mostrar a “novidade” para meu mestre, quando de canto de olho, ele diz: “isso é um atalho pra montar mais rápido. Mas não fica bom. Fica feio. Já te ensinei os outros métodos, esquece esse do pré que não fica legal…” O sermão continuou por mais alguns minutos, o suficiente para eu sentir aquela sensação estranha, igual quando descobri que o papai noel não existia…

Meus problemas não estavam todos resolvidos. Mas é essa a função de nossos mestres. Prover o crescimento do aluno significa às vezes cortar um pouco as asas, deixar alguém pegar o caminho mais longo porque nem sempre o atalho é bom. O que ele fez comigo, é mais ou menos o que eu faço com meus alunos hoje. Mas do mesmo jeito que eu cresci e agradeço por ter passado por isso, meus alunos crescem e me agradecem por terem passado por isso também. Num evento de plasti que fui, um aluno me chamou para me mostrar um modelo e apontou – O cara monta super bem, mas dá pra ver todo o pré-shading do cara. O seu jeito é melhor mesmo! (meu jeito coisa nenhuma, aprendi assim e ensino assim).

Ainda jovem no modelismo, conversando com um amigo de enorme bagagem no hobby, alguém que tem tempo no hobby o mesmo que eu tenho de vida, o assunto pré-shading apareceu, e esse meu amigo era mais um dos não adeptos da técnica. Através dele, conheci a história do pré-shading, porque ele ficou tão popular, e depois dando uma pesquisada, vi que tudo aquilo que ele dizia fazia muito sentido.

A história do pré-shading

O pré-shading é uma coisa muito antiga no mundo da arte. Trata-se de uma modificação na ancoragem das cores sobre uma superfície, ou seja, o comportamento que determinada cor tem, relativo ao tipo, cor e textura da superfície a ser aplicada. Se você não sabe o que é ancoragem de cor, é porque provavelmente nunca teve que pintar uma parede de branco, e como é chato isso. É mais um entre tantos os recursos usados nas pinturas artísticas em geral.

Essa forma de aplicar sobre as linhas de superfície e sobre bordas de um kit nasceu pela necessidade. Modelistas super capazes e experientes eram contratados por editoras para escrever em revistas de modelismo, dando suas impressões sobre a montagem do modelo, com fotos da montagem e do modelo pronto. Tudo muito bonito, só com um porém… Prazo. Um modelista tinha que montar, pintar, fotografar e escrever a matéria sobre o kit em dias, para que a matéria saísse a tempo da edição da revista.

Todos nós modelistas sabemos que montar um kit em um mês, às vezes já não é algo tão fácil, e ainda fotografar e escrever fica mais complicado ainda, isso se o modelista escritor não tivesse de entregar mais de uma matéria por mês, ou pior, trabalhasse em mais de uma publicação, duplicando suas atribuições… Já passei por isso, não é mole não. Na verdade, como modelista profissional, convivo com a palavra “prazo” todos os dias, e às vezes a pressão interfere demais, e de forma negativa, na nossa “inspiração artística”.

Então, a técnica do pré-shading nasceu dessa necessidade de achar atalhos na montagem para se terminar um modelo a tempo da próxima edição da revista. Não quer dizer que o modelista da revista usasse o pré-shading nos seus modelos para um competição por exemplo.

Conclusão

Continuei minha vida modelística sem o uso da técnica (pelo menos não esse uso indiscriminado dela) e acabei descobrindo outras mais avançadas, outras mais simples, outras completamente artísticas, outras absolutamente técnicas… Mas ensiná-las eu já deixo para as próximas postagens minhas, ou então me procure para o curso, e eu te ensinarei porque dizer não ao pré-shading.

Se você é um adepto e gosta do resultado, continue usando. Não existe apenas um jeito de fazer as coisas, e o mais importante é você estar se divertindo, e gostando do resultado do seu trabalho, mesmo porque o resultado final de um pré-shading bem feito fica bom sim, e é uma técnica simples, fácil de aprender, e bastante prática.

Deixo aqui abaixo uma demonstração que eu fiz para uns amigos no whatsapp de como fazer shading de cores somente no aerógrafo, usando para pintar o modelo apenas uma cor, um aerógrafo, uma pressão e uma diluição. Dúvidas, críticas ou sugestões, escreva para mim no budiv8@bol.com.br ou no facebook.com/blogdochiquito.

 

Boa montagem a todos!!!

parceria_blog_chiquito


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About the Author

Modelista profissional. Pratica o hobby desde 1999, profissionalmente desde 2007. Dá aulas de plastimodelismo, monta encomendas, trabalha com maquetes para arquitetura, museus e mídias em geral.



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