Técnicas

Published on maio 13th, 2019 | by ES1

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Teoria das cores no plastimodelismo – Parte 2

Recapitulando

Na primeira parte, falamos por alto sobre o que é uma cor e como a percebemos. Também foi dada uma pincelada nos sistemas pictóricos(aditivo e subtrativo), além de falarmos em alguns parâmetros que definem as cores. Hora de nos aprofundarmos mais e de ver como usar isso no plastimodelismo.

Os parâmetros pelos quais as cores são identificadas

Simplesmente dizer que “isso é azul escuro e aquilo é um azul mais clarinho(ou menos fechado)” é altamente simplista e deve ser avaliado com mais critério. Vamos ver direitinho o que define uma cor.

Matiz(Hue): é a “cor em si”, sem adição ou interferência do branco ou preto. Nesse ponto, variações de azul amarelado e azul esverdeado são duas matizes distintas do azul(que é uma outra matiz), oriundas das misturas de azul com amarelo e verde, respectivamente(que são 3 matizes distintas).

Saturação(Saturation)/Intensidade(Intensity)/Croma(Chroma): à grosso modo é a pureza de uma cor específica. Por “pureza”, deve-se entender a ausência de cinzas(uma cor pura não tem interferência de cinzas, que são oriundos da mistura do preto com o branco em proporções quaisquer). Quanto maior a presença de um cinza(clareando ou escurecendo), menos no ponto de saturação a cor fica, afetando até percepções como a de movimento, volume e profundidade/distância.

Brilho(Brightness)/Valor(Value)/Luminosidade(Light): pode-se dizer que alterar o brilho/valor de uma cor é o mesmo que adicionar claridade ou escuridão à mesma, criando uma sensação espacial. Cores com muita variação em seu brilho(ou valor) são ditas cores de “alto contraste” e costumam denotar locais diferentes no espaço tridimensional, enquanto uma transição suave de valor, passa ao nosso cérebro a noção de um espaço contínuo, com profundidade. Ao se dopar uma cor com mais preto ou mais branco, é possível dar a idéia de proximidade ou distanciamento de um objeto(basta adicionar branco ou preto, respectivamente). Duas cores completamente diferentes podem repassar a noção de estarem à mesma distância do observador se tiverem a mesma quantidade de branco e preto. É a manipulação do brilho que dá a noção de distância, transformando uma pintura feita em tela (2-D), numa representação ambiental(3-D).

Exemplo clássico em todos os sentidos: A Última Ceia(Leonardo da Vinci, Sec.XV). Veja como a transição de tons mais claros para mais escuros nas paredes laterais reforça a sensação de profundidade em relação ao primeiro plano com a mesa, Jesus e o apóstolos

Note a diferença para o quadro “Cruzada Albingesiana” das Crônicas de São Dênis, pintado no Séc.XIII/XIV: a falta de variação nas cores mata a idéia de profundidade e os elementos parecem estar amontoados em um plano bi-dimensional, ao contrário da realidade

Triângulo HSV/HSB, mostrando a relação entre matiz, saturação e brilho para uma cor específica. Esse mesmo triângulo existe para todas as demais matizes existentes.

Efeito de escala

Talvez já tenha visto em alguns produtos da AK Interactive, notadamente as tintas, o termo “Efeito de escala”. Mas o que é isso? Vamos explicar com calma.

Uma tinta comum dá um efeito diferente para objetos grandes e pequenos. A percepção é simplesmente diferente de um kit na 1/35, 1/16 e 1/72 com as mesma cor: enquanto uns modelos chamam a atenção, outros desaparecem, sem despertar qualquer interesse. Mas o que causa isso?

Para começar, precisamos pensar nos kits de uma maneira diferente: em vez de focarmos simplesmente nas dimensões, pensemos na distância que o kit estaria de nossos olhos se fosse um objeto real.

Perfeito exemplo para ilustrar o que estamos falando

Na imagem acima, podemos ter uma clara noção do que estou tentando passar: os dois Airbus A400M são da mesma cor e do mesmo tamanho(óbvio) e são expostos às mesmas condições de iluminação, mas o avião da esquerda está muito mais próximo do observador que o da direita. Note como o avião mais atrás parece ser muito mais claro.

Agora, em vez de pensar que são aviões do mesmo tamanho, separados por uma grande distância, imagine que são dois aviões na mesma distância, mas de diferentes escalas(como se um deles fosse 1/32 e o outro, 1/48). Para dar essa ilusão de distanciamento, a pintura de um kit com cores mais claras é uma ótima solução para dar realismo aos kits em escalas pequenas.

Outro uso muito bacana de cores para” enganar” o cérebro e adicionar perspectiva é no campo dos dioramas. Especialmente em cenas de dioramas de ferreomodelismo é possível criar um pano de fundo para as maquetes, dando a impressão de haver profundidade, simplesmente pintando paredes e usando matizes mais claras, menos contraste e saturação.

Um excelente exemplo é esse quadro de Paul Cezanne. Note como os campos em primeiro plano recebem uma presença forte de tons de alto contraste(e com grande presença de matizes de laranja e amarelo) enquanto as montanhas têm muito menos contrastes e predominância de tons azuis.

No modelismo, em 1988 a IPMS lançou uma regulamentação que servia como um guia para dopar as tintas a fim de dessaturá-las de acordo com as escalas:

  • 1/32 – adicionar 7% de branco
  • 1/48 – adicionar 10% de branco
  • 1/72 – adicionar 15% de branco
  • 1/144 – adicionar 23% de branco

Note como isso pode ser usado no nosso mundo: acima, há dois Messerschmitts 109. Na escala maior, as cores apresentam maiores contrastes, enquanto nas menores, as cores são mais claras e o contraste delas é reduzido. Outro detalhe muito importante é que nem sempre o branco pode ser a melhor pedida para a dessaturação. Um tom como o buff(ou cor-de-palha) pode ser bem mais interessante. Na dúvida, faça sempre um teste. Tintas como a AK já levam em consideração esse efeito, mas outras marcas podem necessitar da tabela de dopagem da IPMS.

O Hummel 1/285 é pintado com cores muito mais claras e com pouquíssimo contraste no Dunkelgelb em relação ao modelo 1/35. Se postos lado a lado, nossa mente poderia ser enganada facilmente com a percepção de que os veículos estariam separados por uma grande distância.

O que virá a seguir?

Na próxima parte, falaremos sobre como usar o que sabemos até agora para darmos um visual mais incrementado aos nossos modelos, seja com modulação, fading ou filtros.

Referências

http://www.missing-lynx.com/articles/other/modulationmr_1.html

The Composition of Paul Cezanne: Modeling vs Modulating

http://www.criarweb.com/artigos/teoria-da-cor-propriedades-das-cores.html

The Scale Effect of Color and other considerations

AK Catalogue 2016, páginas 13-19: http://www.ak-masters.com/CAT/AKCATALOGUE2016EN.pdf


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About the Author

Engenheiro de computação formado na UFES e com diversos cursos na área de redes e tráfego de dados, absolutamente louco por carros, aviões, trens, tanques, caminhões, história e estratégia. É o braço técnico da UdK.



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