Técnicas resina

Published on janeiro 20th, 2017 | by ES1

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O primeiro kit de resina e suas lições

OBS: Eu tinha dezenas de fotos do processo de montagem do Tracer, mas inadvertidamente, elas foram perdidas ao longo desses 3 anos. Se eu as achar por algum acaso do destino, atualizarei esse post com as mesmas.

Não adianta fugir deles como alguns fazem: invariavelmente nós vamos nos deparar com algum modelo que não é reproduzido em plástico, e sim, em resina.

Para os que montavam FAB, nomes como Duarte, Commerce-Center, Liberty Quality e GIIC são familiares. Essas marcas fornecem não apenas kits de aviões usados pelo Brasil como também sets de armamentos e kits de conversão para modelos convencionais, injetados em plástico.

Dentre muitos mitos e verdades, pretendo destacar aqui o que eu aprendi com o meu projeto de resina na prática.

Qual a minha experiência prévia?

Sou modelista há alguns anos: ganhei meus primeiros kits quando era criança e, obviamente, detonei os bichinhos, mas como eu ainda os tinha, passei a reformá-los. Assim sendo, ainda tenho uma B-17F da Academy Minicraft e um Audi Quattro Clic-Clac da Heller(o primeiro já reformado e o segundo, na fila). Após muitos anos parado, redescobri o plastimodelismo com os fóruns na internet, especialmente o Plastimodelismo.org, que hoje é o Plastibrasil.com.

Nesse fórum, eu aprendi muito sobre praticamente tudo: scratch, materiais alternativos, pinturas, técnicas de montagem, reforma de kits, criação de decalques, uso de programas como CAD e Corel Draw para criar peças. Isso me deu novo ânimo para retornar à bancada, que nunca mais ficou vazia ou parada.

Desde então, monto miniaturas para mim, para amigos e até faço encomendas e meu único problema é que, na correria da criação de conteúdo, gerenciamento da loja e outras atividades, não tenho tido tanto tempo para o modelismo como eu queria. Jogar War Thunder também não ajuda…

Após minha “volta”, tenho me dedicado muito na criação de decalques, na criação de peças em scratch usando plástico e metal, além de começar a trabalhar com replicação de peças em resina. Todas essas capacidades me deram condições de terminar muitos kits que eu tinha ferrado anteriormente, ou que, de uma forma ou outra, tinham sofrido perda de peças, quebras e danos. Quando eu olho para um kit, raramente ele é terminado sem alguma alteração. Procuro ser carinhoso e perfeccionista na medida das minhas parcas habilidades.

…e então me deparei com meu primeiro kit de resina!

Nosso objeto de estudos!

Tudo aconteceu quando estava em contato com a GIIC para postar sobre o kit deles do Grumman E-1 Tracer e vi que estavam prestes a lançar o kit com um decalque incorreto. Em agradecimento à minha observação e ajuda, fui presenteado com o Tracer na 1/72(minha escala favorita)!!! Mal acreditei até receber e abrir a caixa! Agradeço demais ao pessoal da GIIC(não, não é “G2C” como alguns falam).

Então comecei a avaliar as diferenças entre resina e plástico. O manual é bem mais artesanal, mas é suficientemente claro e sem ambigüidade, então não vi problemas nesse ponto. As peças vêm quebradas numa seqüência bem lógica de montagem também, tornando a construção aparentemente tranqüila.

Tudo parecia se encaminhar bem. Só estava com um pouco de receio de mexer com a carlinga em vacuum-forming. No nosso mundo, as ofertas do Tracer são muito poucas: na 1/72, apenas a Mach2 francesa os fornece; na 1/48 há o Collect-Aire; na 1/32 temos o Tigger/ID Models e o resto são kits de conversão: Falcon e RHVP(ambos 1/72).

Buscando ajuda…

O bacana do nosso hobby é que há muita gente realmente disposta a nos ajudar, compartilhando experiência e dando dicas. Tenho a imensa sorte de ter dois amigos com vasta expertise em nosso passatempo: Italo “Oráculo” e Sérgio Reis(não, não é o cantor). Ambos me ensinaram muito e o que ficou de lição principal é: “kit de resina é ótimo ou horrível; raramente se vêem meios-termos”.

Assim sendo, quando terminei de montar um destróier Akatsuki da Tamiya na 1/700, resolvi criar coragem e partir para meu primeiro kit de resina. Certamente seria algo desafiador, mas retardar a montagem não tornaria as coisas mais simples.

Avaliação preliminar

Gostei muito de a GIIC ter separado as peças em sub grupos(fuselagem, asas+raiz, naceles+motores+pás de hélice, radar+suportes e empenagens verticais+horizontais), todos isolados em sacolinhas. Ao abrí-las, minha primeira surpresa: as peças são meio “colentas”(até lixá-las foi difícil). Só depois de muito banho de água com detergente, que elas ficaram melhores de trabalhar, sem exibir minhas digitais após tocá-las.

Não subestimem a importância de um esquemático!

O Grumman E-1 é um avião com pouquíssimo material de referência, ao contrário do E-2 Hawkeye. Mesmo fotos externas costumam não esclarecer todos os detalhes necessários. Com um pouco de garimpagem, Achei alguns perfis técnicos em 3 vistas, além de ilustrações do interior da aeronave(provavelmente vindos de um manual da US Navy!!!) e já me deparei com um grande pepino e quatro problemas mais simples:

  1. As janelas onde ficam os operadores de radar estão no lugar errado e como essas janelas são grandinhas, isso me lava ao próximo ponto
  2. Não há as estações do trabalho dos operadores de radar. Para não ficar tudo oco, apelemos para o bom scratch
  3. A fuselagem toda não tem os relevos dos painéis. Vamos apelar para o scribing então: é chato, mas não é um bicho de sete cabeças
  4. O cockpit está muito espartano(só assentos, o console central e mais nada). Mesmo que “não se vá ver muita coisa depois de terminado”, eu vou detalhar essa área. É mais um capricho mesmo… Mas agora vem o pior
  5. O radome do radar está completamente errado. Precisa ser inteiramente refeito

Embora os scratches menores não sejam problema, realmente fazer o radome todo é algo que me preocupa. Na pior das hipóteses, terei de deixar o radome original do kit. Não é o que eu esperava prum primeiro kit de resina…

Que comecem os jogos

A montagem começou no computador. Muita, mas MUITA pesquisa mesmo foi requerida para saber mais sobre o Tracer e seus detalhes. Felizmente achei imagens boas, fotos de manuais de época, ilustrações técnicas e, como ele compartilha muito com o Trader e o Tracker, ajuda bastante a detalhar motores baias e trens de pouso, além de outras áreas comuns entre esses aparelhos.

Com a ajuda de um programa de desenho vetorial ou CAD e fotos de referência é possível recriar partes do interior da aeronave que ficarão mais visíveis, como a cabine de pilotagem e as estações de radar.

Para o painel de instrumentos de pilotagem, o console central e as estações de radar, fotos foram usadas como base e uma ilustração foi feita no Corel e sistematicamente testadas e adaptadas até ficarem à contento. O assoalho da área dos operadores foi feito com chapa de plástico de 1mm e as estações de trabalho, com chapa metálica usada em offset de gráfica. Os assentos das estações serão os que eram originalmente do cockpit e para os pilotos, farei cópias em resina com diversos upgrades.

Scribing e o reposicionamentos das janelas

Conforme dito, a fuselagem principal é totalmente lisa(bem como as naceles dos motores), ao contrário das asas, capotas dos motores e superfícies de controle, que são bem mais detalhadas, então um pouco de marcação será requerida antes de fazermos os sulcos finais.

Resina não é como plástico: ela costuma ser muito mais dura, mas muito menos resistente(ao contrário do plástico). O resultado é que as peças tendem a se quebrar se você errar a mão no manuseio, forçando-me a ter muito tato. Como algumas peças são muito finas, quem estiver montando precisa ter cuidado quadruplicado.

resinaComo a fuselagem do E-1 não tem muitas variações de relevo, fica muito mais fácil de riscá-la, só que o mesmo não pode ser dito das naceles dos motores, de design cilíndrico.

resinaPor falar em naceles, o encaixe de suas metades e delas com a seção central da fuselagem requer muito desbaste com retífica e estilete para que fique à contento. Usei as pontas diamantadas para trabalho grosseiro e as de ponta montada para arremates.

Antes de colar as naceles nas asas, ela precisam ter o desenho da parte posterior corrigido, já que eles aparecem curvos no modelo e são retos no modelo real. Isso tudo feito, primer e pintura no porão de trem de pouso, nos motores e na capota dos mesmos por dentro. Mas por que raios fazer isso, antes de colar a fuselagem?

Conforme dito lá atrás, as janelas dos operadores de radar estão incorretamente posicionadas e dimensionadas; embora não seja um bicho de sete cabeças, preciso ter a referência da linha de onde ficam os discos de hélice pois, a partir disso, posso traçar as janelas e posicionar corretamente as estações e cadeiras dos operadores.

Uma vez traçada a posição da linha da hélice, fica muito mais fácil traçar a posição das janelas. Com uma furadeira, os buracos em ambos os lados da fuselagem foram abertos e desbastados com lima até ficarem com o formato adequado. As janelas antigas foram tapadas com plástico e massa.

Resolvido esse ponto, vamos para o interior…

Cockpit e fuselagem

Conforme dito, o interior do modelo é MUITO espartano.  Assim sendo, quebrei a fase de trabalho interior em 2 estágios:

  • Construção do compartimento dos operadores de radar; e
  • Upgrade da cabine de comando.

Com fotos do interior do Tracer e auxílio do Corel Draw, fiz das estações dos técnicos, sendo impressas em papel comum para teste de dimensão/conformação. Nesse momento, é basicamente um origami, com impressões, recortes, dobraduras, colagens, correções, reimpressões… Até chegarmos ao modelo definitivo que vai para a chapa de metal(uma folha de offset, que ganhei de um amigo que mexe com gráfica), para se tornar a versão final.

As estações são coladas no lugar e as cadeiras dos pilotos são copiadas em um molde de silicone, sendo posteriormente posicionadas. Tudo alinhado com o assoalho da cabine de comando e feito o dry-fit das metades da fuselagem….Hora de primer, pintura e verniz. As telas de radar e de comando das estações foram impressas em máxima resolução, usando fotos e esquemáticos reais.

A cabine é bem básica, com apenas as duas cadeiras dos pilotos e o console central. Então resolvi me guiar pelas referências e criar um painel, pedais e manche. A antepara atrás dos pilotos, ligando à cabine ao resto do avião teve de ser refeita com um gabarito também.

Com tudo pintado e os novos assentos em resina no lugar, vamos colar a caixa da bequilha para que a fuselagem possa ser fechada. Como ela veio meio empenada, fui colando aos poucos e consegui minimizar o efeito visual a patamares “passáveis”. Com isso, a cabine pode ser fechada, finalmente, com o canopy. No mais, muita massa e lixa por toda a extensão da junção.

A carlinga em vacuum-forming é facilmente recortada com uma micro-retífica ou serra manual. A essa altura, cada encaixe foi testado diversas vezes, dada a imprecisão dos mesmos. Com ela no lugar, quantidades consideráveis de massa foram aplicadas para que o encaixe e o contorno ficassem à contento. Peça limpa, hora de mascarar tudo.

Antes do primer, umas adaptações no nariz do avião, que recebeu a luz de pouso/taxi e entradas de ar.

Hora de dar asas e motores

A junção das raízes das asas com a fuselagem é razoavelmente boa na parte do dorso da aeronave, mas deixa muto a desejar na parte inferior. O jeito foi sapecar durepoxi, seguida de putty automotiva, amolecida com acetona.

Com as asas no lugar, vamos que vamos para os motores(de longe, a parte mais agradável da montagem). Eles são muito bem injetados e mereceram todo o meu carinho: bastante scratch para as linhas de combustível, pintura esmerada e uma dose de weathering os deram uma vida que até me empolgaram a mexer mais no Tracer, apesar das imensas dores de cabeça.

Com os motores prontos, hora de pintar e envelhecer as baias dos trens de pouso principais. Nada de mais, mas embora os detalhes das baias sejam muito bons nas laterais e parte superior, não há anteparas frontal e traseira. Como tudo fica meio escondido e eu estava muito sem paciência nesse dia, resolvi passar batido(o que me causa grande vergonha de admitir).

E por que eu passei batido, se estava tão empolgado com os motores? Simples: os encaixes das suas naceles nas asas exigiu mais de uma semana de estudos, trabalhos, xingamentos, testes, massa e lixa até que pudesse, enfim, ser encaixados. Mesmo os dutos dos escapamentos dos motores tiveram de ser inteiramente refeitos, bem como os encaixes das capotas+motores nas naceles e o formato do da seção posterior das naceles(conforme já dito anteriormente) precisou ser inteiramente remodelado para que o formato ficasse condizente. Como detalhe final, acresci os dutos de alijamento de combustível em fio metálico na parte posterior da nacele.

Outro “detalhe” que precisa ser revisto pela GIIC: esse kit é, claramente, uma adaptação do P-16 Tracker. Por mais que seja conveniente economizar, as asas precisam ser inteiramente refeitas, pois o mecanismo de dobradura das mesmas(para facilitar a hangaragem) é totalmente diferente da do Tracer, e os suportes sub-alares para as armas ASW têm que ser suprimidos. Nenhuma dessas informações constava no manual, diga-se de passagem.

Grumman P-16 Tracker com suas asas que se dobram para cima…

…e o mecanismo de dobradura para trás do E-1. Note que o corte da asa não é reto, e sim, “dentado”.

A cauda do avião não deu qualquer dor de cabeça extra, com os encaixes sendo simples e o alinhamento, rápido.

A hora do pesadelo

Não adiantou correr: chegou a hora de encarar o erro mais grotesco desse kit: o radome do radar. Por mais que eu quisesse , não daria para usar o radome original porque, bem…Está totalmente errado!

Assim sendo, vamos aos esquemáticos, referências e fotos para gerar um design mais plausível com a realidade. Com uma imagem da transversal, da frente e superior, vamos que vamos para o scratch.

A transversal e a vista frontal viraram perfis em plástico, devidamente coladas entre si, enquanto a vista superior ficou impressa no papel. Pela primeira vez, recorri à argila para moldar uma peça! Como ela é bem maleável, o processo em si foi bem rápido, não tomando mais que um dia para criar um modelo muito mais semelhante que o que veio no kit.

Com a peça inteiramente seca, vi que havia um problema: a argila fica muito texturixada, caracachenta…Se eu fizer um molde daquela peça crua e replicá-la em resina, simplesmente vai dar um trabalho imenso de alisar a cópia em resina. O ideal será alisar o molde com massa de correção automotiva para, aí sim criar o molde. Só há um pequeno problema: a massa de correção uma vez seca, não adere à argila.

Com tato, paciência e Deus no coração, vamos criar o molde de silicone.

Molde feito, hora de fazer a peça. Usando resina cristal, a primeira tentativa não foi bem sucedida, perdendo bastante material(o radome é beeeeem grande). Na segunda, tive mais sucesso e o novo radome recebeu primer e correções mínimas antes de ser acoplado ao suporte.

O suporte em si veio composto por 3 peças: uma base sob o radar, conectando-o ao dorso do avião e dois suportes laterais. Só que o desenho do suporte principal está errado e os laterais estão grosseiros demais. Assim sendo, os laterais vão em bora(substituídos por scratch) e o principal sofrerá uma intervenção mista(conserto+scratch).

Pode parecer inacreditável… Mas o E-1 está pronto para a pintura!!!

Art et Décor

A pintura do E-1 segue o padrão da USN para todos os aparelhos entre a Guerra da Coréia e os anos ’80: Insignia White(ANA 511)+Light Gull Grey(ANA 620)+Night Black(FS 37038). Se não havia dúvidas sobre as cores, não havia nenhuma dessas informações no manual, então foi tudo tirado da internet(nem as cores e nem onde elas deveriam ser aplicadas).

Decalques no lugar: alguns são originais, como a matrícula e os seriais, outros são caseiros, como os cocares, Navy, etc… Alguma coisa também veio da caixa de sobressalentes.

Alguns Tracers têm variações no que tange à aplicação dos painéis anti-reflexo(anti-glare). Como não achei NENHUMA foto ou perfil do aparelho retratado na caixa, resolvi tomar a liberdade de decorar o avião da maneira que mais me apeteceu, de acordo com as referências.

Tudo pintado, hora dos decalques. E eu achei realmente,em minha grande ingenuidade), que não haveria problema algum aqui. Acontece que os filmes são grossos demais da conta e poucos decalques sobreviveram intactos(para minha sorte, os maiores, que não nos lemes e asas, estão nesse grupo). Já os cocares e as marcações individuais da aeronave precisaram ser inteiramente refeitas. Um detalhe interessante é que os decalques originais, mesmo DIAS após a aplicação, não tinham aderência nenhuma à superfície.

Outro fato interessante é que havia duas folhas de decalque: uma colorida e outra “branca”. Mas eu não achei instruções de uso e nem achei uma boa usar esse sanduíche, já que o filme do decalque colorido já é espesso demais por si só.

As setas de “Rescue” estavam muito mal-feitas e foram substituídas também. Mas o que mais me deixou chateado nesse quesito foi a marcação de onde passam os discos das hélices no avião. Estava claramente visível a inscrição “PERIGO – HÉLICE”, então não puderam ser aproveitados, sendo trocados pelo “DANGER – PROPELLER”. Decalques posicionados, hora do wash e weathering.

Pequenos detalhes, grandes aborrecimentos

O Tracer está montado, decalcado, envelhecido…Hora de colocar as últimas peças: pneus, pernas dos trens de pouso e hélices.

Os trens de pouso não têm sua montagem explicitada no manual e foram postos na base da tentativa-e-erro. Nesse momento, descobri mais um problema: o kit veio com duas pernas direitas! Após uma rápida adaptação, consegui contornar o problema, adicionando um pivô para a roda do lado externo em uma das pernas e suprimindo o interno.

Adicionados os dissipadores de estática na ponta das asas e um duto de ventilação na fuselagem, o Tracer simplesmente não assentava: a bequilha e o trem de cauda(usado para evitar o tail strike, quando a traseira do avião acerta a pista na decolagem) recebiam toda a carga do modelo. Assim sendo, tive de remediar isso reduzindo o comprimento da bequilha e do trem traseiro. Obviamente que isso causou mais um problema: a bequilha colapsou por causa do peso mal-distribuído do kit e da fragilidade da peça(hélices e pernas dos trens são de chumbo, um material não muito adequado a receber cargas mecânicas mais severas).

Com a altura das pernas acertada, resolvi abrir uma concessão prática: o Tracer tem as pernas principais bem mais altas, mas com a bequilha já fraturada e sem paciência de fazer um enxerto para compensar a falta de comprimento das pernas principais, resolvi deixá-lo rebaixado… O ideal seriam pernas de metal torneado mais resistentes ou de resina com miolo de arame, mas resolvi abrir esse precedente.

Ei-lo completo, após 3 anos de seu início:

#choraboy #ehfixa

Conclusão

Nota: 4,9

Esse kit me tirou completamente da zona de conforto. Apesar das dores de cabeça que tive em sua longa montagem, eu agradeço enormemente à GIIC pela gentileza de me ceder um exemplar, ao mesmo tempo que me deu a chance de fazer esse review.

Se eu compraria mais kits de resina? A resposta não é apenas sim, como já o fiz: na fila está um A-29 Super Tucano da Duarte. Se eu compraria outros kits da GIIC? A resposta é: depende.

Por mais que esse Tracer tenha me servido como uma ótima bancada de testes e de aprendizado, ele peca muito em detalhes que deveriam ser vistos com um pouco mais de atenção pelo pessoal de P&D e pelo controle de qualidade. As asas do Tracker são exemplos claros do que eu estou falando. Pelo fato de esse kit ser quase único, esse foi um dos meus maiores motivadores para terminá-lo(isso e o fato de eu ser teimoso/obstinado). Por isso mesmo, que ele merece ter os moldes atualizados, não apenas as asas, mas (definitivamente) o radome do radar.

Por fim, mas não menos importante, deixo aqui a reprodução do email que mandei para a GIIC com todas as sugestões para que o fabricante possa lançar uma “versão 2.0” do Grumman Tracer da forma que essa aeronave merece, pois é muito importante apoiarmos as iniciativas nacionais, mas também é importante que essas alternativas domésticas tenham a qualidade esperada.

Olá, pessoal da GIIC!

Enfim, consegui terminar o kit de vocês, que comecei há 3 anos. Vou dar um parecer técnico conforme ficamos combinados na época.
  1. Embalagem: O kit veio bem embalado e intacto, chegando aos meus cuidados sem maiores problemas. Uma sugestão seria investir em caixas de papelão para agüentar melhor os maus tratos dos Correios. Por dentro, todas as peças estavam bem ensacadas, bem como os decalques e manual. Mas é só uma observação minha mesmo, já que embora a caixa seja delicada, havia uma outra mais parruda o protegendo por fora. Isso geraria uma economia maior para vocês caso decidam vender direto para os clientes finais no futuro;
  2. Manual de instrução: o manual é bem simples e direto(gosto muito), só que ele pecou em alguns pontos que eu considero essenciais: a montagem dos trens de pouso não ficou muito clara(duas peças em formado de “V” sobraram), não havia nenhum esquemático de pintura, uma relação das cores a serem usadas no modelo. Colocar uma referência sobre onde e quando o aparelho atuou também seria muito bem vinda(que ano, unidade e navio o aparelho estava alocado…);
  3. A fuselagem do modelo veio sem nenhuma linha de relevo. Seria conveniente pôr, já que as asas, naceles e empenagens têm esse nível de detalhe;
  4. Um problema mais sério de moldagem na fuselagem do avião é a posição das janelas dos operadores do radar, que estão quase no teto da cabine, quando deveriam estar uma posição muito mais baixa(vide anexos);
  5. O nível de detalhes nas caixas de rodas dos trens principais é muito bom(mesmo), mas considerem adicionar uma peça para tapar a parte posterior do mesmo, que carece de uma antepara;
  6. Ainda no quesito nacele, o formato posterior das duas está errado, muito curvo, em formato de “C”. O modelo real é reto.
  7. Meu exemplar veio com muitos excessos de resina nos encaixes das naceles com as asas e das naceles com a capota do motor que precisaram ser sistematicamente desbastados com retífica para poder unir as peças com um pouco mais de facilidade. Seria o caso de melhorar o processo de remoção dos excedentes de resina dos moldes quando ainda não tivessem curado, ou trabalhar melhor a quantidade de resina por peça produzida.
  8. A antepara da cabine atrás dos pilotos carece  de melhor detalhamento para representar a porta que conecta a cabine de comando aos compartimentos traseiros(e isso dá pra ver de fora com o kit pronto. Essa antepara também pode ir até o assoalho da cabine, já que ela “morre” na linha da janela.
  9. Embora vocês tenham querido racionalizar custos na produção do Tracer(o que é sempre muito bem vindo e visto), houve um excesso de economia que sobrepujou a acuidade: as asas têm um mecanismo de dobradura do Tracker(que dobra as asas para cima e têm um corte reto visto de cima), enquanto as do Tracer são para trás(como as do F4F e F6F). Se virmos as referências, as asas vistas de cima têm um “dente” em direção à ponta da mesma perto do bordo de ataque, apontando para fora;
  10. O próprio espaço entre a fuselagem e a asa exige do modelista o comprometimento entre eliminar o vão entre a parte inferior das asas com a fuselagem e depois acertar o nível do dorso do avião, ou o oposto: deixar o dorso nivelado e preencher de massa o vão entre a fuselagem e a asa(dos dois lados), sendo uma área bem complicada de lixar;
  11. Ainda sobre as asas: as partes externas retêm os suportes de armas do P-16, que são inexistentes na variante AEW, e o manual não mostra que devem ser retiradas;
  12. Os motores são “hórs-concours”! Adorei trabalhar neles;
  13. A montagem da cauda não deu problema nenhum. Mas se der, seria conveniente reduzir a ranhura onde os estabilizadores entram. Mas nada para se desesperar;
  14. O radar… Bom, nesse ponto não dá fazer nada além de refazer inteiramente o molde. Tanto o radar, quando os suportes central e laterias estão muito diferentes do modelo real. Eu tentei fazer um enxerto(sem sucesso) e projetei do zero um novo radome para o Hazeltine AN/APS-82 com os esquemáticos que achei, em argila, criando, em seguida um molde em silicone para criar um modelo em resina final;
  15. Sobre o canopy em vaccuum-form, nenhum demérito. Não deu trabalho de cortar e colocar no lugar;
  16. Sugestão para os decalques: falem com a Sirap de SP capital para imprimir as folhas de decalque(ou comprem as folhas deles e imprimam numa gráfica local). Como perdi alguns decalques originais, eu acabei tendo que fazer alguns usando esses papéis e a aplicação é bem simples, não requerendo a cola de bijuteria. Acredito que poderá até gerar uma economia para vocês e ser mais fácil para o modelista;
  17. Os decalques “Rescue” não puderam ser usados, pois o desenho das setas estava errado em relação às referências;
  18. O decalque de aviso das hélices estava escrito em português e não em inglês, por isso também foi substituído;
  19. A altura das pernas dos trens de pouso principais está muito curta, precisando ser elevada nuns 5 a 7mm; e
  20. Por falar em pernas dos trens, sugiro um metal mais forte para suportar o peso da miniatura, especialmente na perna da bequilha.
No mais, agradeço muitíssimo a oportunidade de ter podido fazer uma avaliação tão detalhada do modelo de vocês e peço desculpas pela demora, mas esse kit me levou até meus limites como hobbysta e, ao mesmo tempo, essas dificuldades me desanimavam, fazendo com que ele passasse por longos períodos de inatividade até eu voltar a querer prosseguir nele. E eu queria prosseguir mais e mais nele, pois sua raridade(e a circunstância que o trouxe a mim) fez com que eu me esforçasse para fazer o melhor kit que eu pudesse.
Espero também que essas observações práticas lhe sejam muito úteis. Se precisarem e desejarem mais aprofundamentos, sintam-se livres para me interpelar à vontade.
 
Atenciosamente,
Frederico Victor
 
Eis a réplica deles:
 

Boa noite.

Lemos com muita atenção seu relatório sobre a montagem da miniatura Tracer.

Pudemos interpretar o quão detalhista é você em relação a montagem prioritária.

Gostaria de esclarecer alguns pontos quando você se refere à:

1 – ” …peço desculpas pela demora”… na realidade não existe demora, apenas existe um tempo hábil para se fazer um determinado trabalho.

2 – “…mas esse kit me levou até meus limites como hobbysta” … significa que seu empenho foi acima de sua própria média.

3 – “…desanimavam, fazendo com que ele passasse por longos períodos de inatividade”… na realidade o seu subconsciente estava resolvendo questões em aberto sobre a conclusão da tarefa de montar a miniatura”…

4 – “… prosseguir mais e mais nele, … fez com que eu me esforçasse para fazer o melhor kit que eu pudesse”…. após solucionar as questões a vontade era de concluir a miniatura com êxito.

Queremos parabenizá-lo, pois todas essas questões que você coloca são realmente a essência do plastimodelismo, somente desta forma que se desenvolve um plastimodelismo hábil. É a idéia básica das miniaturas artesanais em Resina GIIC .

Quanto as questões de 01 à 20 – para nós são informes técnicos, os quais são aprimoramentos para as próximas miniaturas.

As fotos irão para o Blog da GIIC.

Agradecemos e nos colocamos à sua disposição.

Maria Cristina


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About the Author

Engenheiro de computação formado na UFES e com diversos cursos na área de redes e tráfego de dados, absolutamente louco por carros, aviões, trens, tanques, caminhões, história e estratégia. É o braço técnico da UdK.



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